9 de outubro de 2008

Desencontro

Ela chegou ao pequeno salão e acomodou sua bolsa na cadeira vazia ao lado. Abriu a garrafa d’água por hábito, não por sede. Cruzou as pernas e esperou a meia hora que faltava para o início da palestra checando os números do celular.

Ele entrou de maneira desajeitada e se sentou frente ao público escasso, espalhado pelos assentos. Dispensou o microfone e sentindo-se mais confortável pela ausência de uma grande platéia, tirou a camisa para fora da calça e passou a mão rapidamente pelos cabelos. Respirou pesadamente. Olhou para ela sem saber que a via.

Ele fica mais bonito quando está desarrumado, pensou. É uma bagunça não alinhada. Um descomprometimento com a harmonia das vestimentas. A camisa agora amassada e levemente curta que, vagarosamente, seguindo o movimento dos braços, abria frestas para partes do corpo alvo, não esguio, mas ereto e timidamente desenvolto. Levantou e começou a falar, andando de um lado para o outro. Ela ia descrevendo e revelando seu comportamento, que não conhecia, mas a sua imaginação flutuava. Os dedos alongados demonstravam austeridade. Os óculos de aros finos transpareciam sabedoria e a paciência com a mediocridade era um silêncio ante a ignorância da pretensão. Os gestos mornos, pequenos círculos e demonstrações, não apagavam a luz dos olhos sutilmente claros, de pálpebras baixas. O pescoço alongado sustenta uma face de pêlos claros, barba e cabelo rente à cabeça.

Ele sequer imagina o que a moça escondida na platéia começa a desenhar e o pudor a impede de dizer que deseja esse homem calmo. Se envergonha de estar no meio daquelas pessoas, de perceber que ele é o centro das atenções, já que está num palco modesto. Em silêncio, ela continuava procurando palavras que o revelassem sem desmascará-lo. Ficou enrubescida por essa ação desigual – Ela se misturava meio ao público enquanto ele figurava abaixo da luz. Queria chamá-lo de outro nome, mas esqueceu até seu original. Além disso, a falta de intimidade a impedia de inventar-lhe um apelido ou abreviação silábica.

Que músicas ouviria de olhos fechados e quais motivos o levariam às lágrimas? Não haveria outro meio de conhecê-lo, nem de admirar aquele sorriso lateral, a cabeça baixa e intimidada. O desconforto de um palco sem altura. Sentiu-se pouco atraente, ocultando sua sensualidade dançante, ressaltando o olhar hoje mais entristecido, que era coisa da própria vida. Sua roupa amolecida e floral o enganava e ela se furtou a encarar um olhar incerto, por receio de transparecer sua fraqueza. Os nomes que ele falava passeavam por sua retina, mas nenhum era arquivado em sua memória. Longínqua e distraída.

Ela se levantou antes do fim e sem olhar para trás. Ele acompanhou seu trajeto até a porta que dava para o saguão. Distraiu-se por um segundo de seu discurso e gaguejou. Com a porta já fechada, ele olhou para as mãos e lamentou a ausência dela, retomando as palavras dirigidas a ninguém.

4 de setembro de 2008

Não tenho medo. Tenho silêncios.



[são tempos de frases curtas]

3 de setembro de 2008

As pessoas são mais bonitas quando estão desarrumadas.

29 de julho de 2008

Meu avô

Alguém me segue pela casa durante todo o dia. Falta tema para seguir com uma conversa, por mais que ele demonstre vontade de começar alguma. Decido preparar uma garrafa de café. Em vários lugares do mundo, a bebida pode ser motivo de grandes encontros e papos. Seria meu ponto de partida para rever memórias espalhadas pelo tempo e espaço da mente do meu avô.

Café na mesa, algumas bolachas.
- Sente-se meu avô.
- Cafezinho é sempre bom – diz ele, que passados longos anos de sanidade seguidos por decadente perda de memória, o substantivo avô não lhe causa estranhamento
Hesito para verificar se ele começa o assunto. Silêncio.
- E a Vovó Marina, vô? Sente saudades?
- Hum, Marina foi uma namorada minha, bonita que só!
- E seus filhos?
Silêncio. Ele muda de assunto.
- Sabe, existem as coisas. Vou falar para o meu pai, quando ele morrer, dividir entre mim e os meus irmãos. Aí eu pego essas coisas e dou para minha filha cuidar de mim.

Ele chora. Meu bisavô morreu há muito tempo atrás, antes mesmo de minha mãe nascer, seus irmãos não lhe foram companheiros durante toda a vida. Alguns morreram, outros sumiram por diversas cidades. Moravam em uma cidade chamada Santa Cruz, distrito há muito extinto de Ribeirão Preto.

- Onde estou?
- Em Piraju vô. Na casa de sua filha.
- Quem é minha filha?
Aponto para minha mãe.
- Não, essa é Aninha, minha irmã, que não me deixa ir para canto algum.
- Hum.
- Eu me sinto sozinho sabe? Lembro de uma imensidão de coisas e, de repente, tudo fica escuro, vazio, como se eu caísse em um buraco negro.

Percebi que, na verdade, ele se sente muito sozinho, não reconhece as pessoas e tem espasmos de memória que lhe trazem sentimentos muito distantes.
Certa altura do dia, ele pede dinheiro para ir ao bar. Algumas vezes não se pode dar, atrapalha o efeito dos remédios. Não há muito o que fazer, negar a cerveja diária é o mesmo que tirar sua única lembrança dos dias. Não é justo.

Olho em seus olhos, bem fundo, e não consigo resgatar uma lembrança sequer. Nada. É como se por trás da pupila, de dentro da retina, não existisse mais nada, a não ser um emaranhado de idéias confusas, sem cronologia correta, tudo espalhado dentro de um quarto que necessita de arrumação.

6 de julho de 2008

Comecei pelo fim.

Até agora não decidi para onde vou.


p.s: [Que eu, desde a partida,
Não sei onde vou.
Roteiro da vida,
Quem é que o traçou?]

Camilo Pessanha

12 de junho de 2008

Cinema Paradiso


Partir sempre é como habitar lugar nenhum.

Olhar para trás é como ver fantasmas, e sempre em frente é como não ter saudades, ou apagar lembranças.


A vida às vezes segue sozinha, sem capitão para o timão do navio, só embalo das ondas e ventos dos continentes.


Ser sempre dos lugares é pertencer ao mundo e às suas estradas tortuosas.


Envelhecer é descobrir os destinos para onde nos levam os caminhos.

Sentir cada circuntância é viver.


As pessoas fazem parte das trilhas pelas quais passamos. Conhecê-las é pertencer aos lugares e abandoná-los em breve.


É necessário partir e voltar.


Mesmo que a aparência mude, o ar traz o cheiro de tempos diversos.


Não lembrar é abandonar os detalhes de pessoa em seu tempo presente.

Ser pessoa implica perder-se pelos caminhos mal traçados, encontrar o despreparo da falta de planos e das saudades espalhadas e latentes.
[ps. a foto não está em CC's]

7 de junho de 2008

Não vim para ver a vida
P
A
S
S
A
R

Mas sou
P
A
S
S
A
G
E
I
R
A

Vim para ficar
E ver tudo
M
U
D
A
R

21 de maio de 2008

Dias e noites de Montevidéu

Montevidéu

Uma estrela, uma estrela
nenhuma constelação
nenhum disco voador
nem dor aqui
e quando olho lá embaixo
vejo velhos
vejo carros
vejo coisas
a estrela, as luzes, o céu daqui

É um tanto saudade de lá
no entanto eu não quero partir
lá no canto uma estrela
eu adoro existir!

texto de Paulo Vigu. Poeta e compositor pirajuense. De primeira!


[porque os dias e noites têm tido as cores de Montevidéu, que não conheço, mas imagino como seja]

25 de abril de 2008

Cena

Não mude a cena do filme cujo final você não escreveu. É irresponsável e arrogante. Mas crie e invente novos finais, para personagens alcançáveis e insaciáveis por uma nova história.

18 de fevereiro de 2008

do que eu sei

Não me peçam para endurecer.

a leveza é o que me convém.

21 de janeiro de 2008

Não gosto de nada que tire o brilho dos olhos dos meus amigos. Nada que aconteça a eles passa por mim sem deixar uma réstia de dor.

Não são tempos fáceis. São tempos em que os ventos trazem notícias ruins, as aflições engrandecem.

No mundo do futuro, o mais difícil é saber para onde ir. Não há samba nem cachaça para servir de anestesia.

A cidade de pedra maltrata. A cidade de rio é longe e deixou de proteger.

Meus amigos têm a cara e a alma limpa. Sonham. Criam como se vida a isso se resumisse. E sonham sempre.

A esperança de dias melhores nos espreita, embora às vezes tão a espreita que parece não estar em lugar nenhum.

De longe se vê que os tempos hão de mudar e eles se esforçam para tudo correr bem.

Sem motivos aparentes, a tristeza corre sorrateiramente por seus rostos. Eu quase posso ver.

E eu, só consigo lançar palavras frágeis, construídas em prosa e verso.

20 de janeiro de 2008

João Passarinheiro - terceira parte

Depois desse acontecimento, o pai isolou-se numa busca eterna pela mulher. Mal falava com o filho e deixou de preparar-lhe a marmita de arroz, feijão e bife, que costumava trocar pelo peixe abundante no riacho que corria perto da casa. Desde então, Passarinheiro deu para tomar muito café que ele mesmo torrava e servia ao pai nos fins de tarde, quando chegava de sua incursão diária pela mata verde e cerrada. Fumava cigarro de fumo de corda que trocava no armazém de Seu Joaquim por um punhado de café fresco servido todas as tardes pelo comerciante. Era magro e esguio, andava descalço sempre, por maior que fosse a caminhada.


[Aviso aos navegantes: para entender esse texto, creio que seja preciso ler as outras duas partes, perdidas, embora facilmente encontráveis, em cantos desse blog. Era só e tudo isso]

8 de janeiro de 2008

me dê notícias de você

É minha fuga.
Meu delírio.
Meu silêncio e meu suspiro.

Tudo está lá fora.
.
.
.
Quieto.
.
.
.
À espreita de um descuido meu.

Esse descuido que nunca vem.
É um medo que me assiste.
Sem trégua.

26 de dezembro de 2007

Gosto mais dos casos que Chico cantou e das histórias que Garcia Márquez escreveu.
Hoje tatuei minha vida em mim.
Outra metade dela, tatuei nas encostas do rio.
Uma história que não é minha.
Mas criei e sou a protagonista não revelada.
O sujeito do não-acontecer.
Reinventei-me para poder viver.

Faltou-me o verbo.
A canção.
O tato.
Até a lembrança.

E silêncio e sozinha.
Dona de uma história que só acontece aqui, cá bem dentro daqui.
Agora já não é mais nada.
Apenas certezas vãs. E o nada.
Tudo passou diante dos meus olhos e dos meus gestos.
Eu nada pude fazer.
E agora tudo está em seu devido lugar.
Cá dentro de mim o mundo revirou-se.

Eu calei.
Silenciei.


Neguei-me a mão que passeava.
Nada fiz.
Nada.

27 de novembro de 2007

Fragmento de uma madrugada.

Isso acontece com os livros.

São sentimentos de páginas abertas.

14 de novembro de 2007

É que quando eu vejo as pessoas na rua, se escondendo nos bares para fugir da chuva, penso até em querer ficar.

28 de outubro de 2007

Do Engradado


Hoje é dia de samba em Piraju também.

Domingo povoa as ruas de batuques.

eu aqui.

eu ali.

eu lá

Vai Vai

Pela janela de casa um samba de longe invade todo o lugar.

É uma pena que eu não possa ir para lá sambar.

6 de outubro de 2007

sobre música e sem qualquer pretensão

Hoje, depois de uma semana repleta de dias difíceis, de descobertas e oscilações de humor, assisti, logo que acordei, a um DVD de Chico e Tom. Há bem poucos dias atrás, estava enfadada da voz do Chico, como relatei em outro texto. No entanto, hoje, enquanto as imagens circulavam pela tela, reafirmei meu gosto pela música, dele e de tantos outros músicos maravilhosos que existem nesse país.

Sem querer pensar muito sobre o assunto, várias vezes já cheguei à conclusão de que a música é a forma mais sublime de arte. Ela, mais rapidamente que todas as outras artes, atinge nosso ponto (de noção quem sabe) estético, emocional etc e tal. Esfria a medula, e hoje, aqueceu e umedeceu meus olhos.

Gosto muito de música, não há grande surpresa nisso, difícil quem não goste, por isso é tão sublime, simples maneira de fazer arte. Bem, pelo menos de senti-la.

Gosto quando predomina o silêncio musical, daquele silêncio espontâneo que existe quando amigos meus fazem música. Serenidade, sem mais delongas sobre o que essa palavra possa significar.

1 de outubro de 2007

Desabafo da preguiça


(Uma pausinha no Passarinheiro só porque eu quis. Essa é que é a verdade)


Todo dia, mesmo que ele seja sempre um novo dia, dá um pouco de preguiça.


De abrir o jornal diário e encontrar sempre o mesmo tipo de notícia.


De abrir o olho quando acorda e saber que o mesmo problema ainda precisa ser resolvido.


De saber que a rima do poema às vezes é ruim e que às vezes também não tem sentimento algum.


De saber que o sol queima e algumas vezes arde, outras, que ele deixa uma cor bonita na pele.


De acender o primeiro e mais prazeroso cigarro, aquele depois do café da manhã, e saber que ele vai te adoentar daqui a algum tempo.


Também dá um pouco de preguiça da voz do Chico, mas essa informação eu mantenho em segredo.

29 de setembro de 2007

João Passariheiro - outra parte

A capela ocre estava cheia de pequenas flores amarelas e brancas no contorno dos bancos e em arranjos dispostos pelo altar pequeno de alvenaria ainda não rebocado. Para a solução deste problema, Delfina sacou de um baú adormecido no quarto de sua falecida mãe, uma toalha branca com bicos de renda. Era essa mesma toalha que a mãe usava para cobrir a velha mesa de madeira de sua infância durante os almoços dominicais.

Delfina era muito parecida com a mãe, tinha os cabelos longos e negros até as costas, lisos como um tecido fino de seda. Quase todos os dias usava vestidos floridos e chinelos de finas tiras de couro. Passava horas frente ao espelho escovando os cabelos. Nessas horas sonhava com seu casamento com um fazendeiro rico, que tivesse casa e carro e que apareceria de repente, trazendo-lhe flores e trajando terno xadrez de tons pastéis. Quando encontrou João Passarinheiro e inevitavelmente se apaixonou, também aprendeu a lamentar frente ao espelho a triste sorte de se apaixonar por um sujeito magricela sem carro e sem casa, que trabalhava na colheita de café nos sítios e fazendas da região, se aboletando em qualquer canto escuro para dormir e, muitas vezes, dependendo da generosidade de seus patrões. Levava uma barraca de lona nas costas e andava feito um caramujo com a casa nos passos.


Passarinheiro perdeu a casa de seus pais quando fez dezessete anos, logo após a morte de seu pai, que padecera louco depois do sumiço repentino de sua mulher, vítima de uma febre de cuidados banais que alimentava uma busca cega pela limpeza e pelo bem-estar da família. Belo dia, tomou o rumo da estrada em busca de sabe-se-lá o que e perdeu-se na escuridão e, por mais que João e seu pai procurassem, a mãe perdia-se cada vez mais pelo matagal, até ser absorvida por ele.

24 de setembro de 2007

João Passarinheiro e o que virá por aí.

Estes textos que lerão em breve são fragmentos da vida de João Passarinheiro. Inventei outro dia que ele existia e agora, cá pra mim, ele já tem uma vida toda dele, embora seja ela toda minha. Muitas coisas eu vou mudar, outras vou corrigir, mas a intenção é publicar assim, CRU.

Vou escrever devagar e postar quando der vontade. Ainda não tem fim, nem meio, mas já é um começo. Pra escrever João Passarinheiro vou precisar de Piraju e das conversas e estórias de lá. É assim mesmo.

Também estou disposta a aceitar sugestões, se alguém quiser contribuir com o futuro do personagem. Não garanto que ele rume para algum lado, mas vou gostar de saber que ele pode ter outras chances. É isso, e por enquanto, é só isso.



João Passarinheiro se encontrou com Delfina, que achava muito bonito chegar atrasada em festas. Considerava uma displicência elegante, digna daquelas pessoas que pouco se importam com tudo e todos. Em sua imaginação de futura estrela, aquele desdém simbolizava o mérito somente conferido as grandes estrelas que, de tão reconhecidas seja lá por que coisa, não deviam satisfação a mais ninguém. Naquele dia, era ela a grande estrela. A capela estava arrumada conforme seu gosto. Cada detalhe foi pensado e sonhado desde que decidiram se casar. A capela ficava em uma pequena estrada de terra que ligava nada a lugar nenhum. Escolheram a pequena igreja porque fora lá que Passarinheiro nasceu. Sua mãe teve um parto difícil, apesar de uma gravidez tranqüila.

Na ocasião, havia um panfletinho de Nossa Senhora Desatadora dos Nós no bolso de seu pai, que ficou rezando de olhos cerrados para que o filho nascesse bem, ainda que parido ali, no meio de uma estrada por onde só se passava gente a pé, nenhum carro, carroça ou carro de boi.


Com o sucesso do parto e diante da criança saudável que nascia, decidiram erguer ali a capela em homenagem a santa. João Passarinheiro, mesmo pensando em toda a dificuldade de realizar ali o casamento, não hesitou na hora de escolher o lugar. Delfina a princípio não gostou da idéia, mas depois leu em uma revista no dentista que uma atriz famosa escolhera, mês passado, um lugar parecido. A atriz falava de um casamento rupestre, simples que só, afirmando assim a possível existência de uma felicidade maior do que aquela cheia de pompa e circunstância com a qual sonham a maioria das noivas.

(Continua no próximo post e vai continuando sempre)

23 de agosto de 2007

A China inventou tudo!

Em uma de minhas várias noites insones, escolhi a televisão como companheira. Andando por canais e por programas que passam na madrugada, me deparo com a TV Escola apresentando um daqueles programas educativos (que por sinal gosto muito, mesmo até daqueles feitos para crianças) sobre a China. E gente, acreditem, a China inventou tudo.

Minha primeira surpresa, já há alguns anos atrás, com as invenções mirabolantes do país, foi a invenção do macarrão. Eu conservava comigo a certeza de que esse alimento era algo genuinamente italiano. Depois pensei que talvez essa fosse uma daquelas coisas como os ingleses inventaram o futebol, mas foi o Brasil quem tornou o esporte popular e quem melhor desenvolveu a técnica. Mas meus amigos, pasmem, a China inventou o futebol. Há registros de dois mil anos atrás de chineses brincando com uma bola, tal como é no futebol, esse esporte que sempre nos foi apresentado como uma invenção de Charles Miller. Pois é, Miller que nada, foi o Marco Pólo, que pelo visto não era bobo nem nada, quem passou uns tempinhos na China, só de olho nas invenções dos caras e quem, também, levou tudo para a Europa, que acabou ficando conhecida como a grande inventora das coisas necessárias para a humanidade.

E por falar em inventores e suas conseqüentes idéias geniais, até Leonardo Da Vinci acabou caindo um pouco no meu conceito, depois de uma outra descoberta não menos surpreendente que fiz ali, diante da tela da TV Escola. Quando a exposição sobre o gênio veio para São Paulo, eu fiquei convencida de que ele tinha inventado as coisas mais importantes dos últimos tempos, mas não, ele inclusive tomou como sua, uma invenção genuinamente chinesa que eu conheci na minha infância, quando passei por Barra Bonita, no interior de São Paulo, a eclusa. A eclusa serve para que os barcos que navegam em rios serem transportados quando acontece um desnível, que o barco não conseguiria ultrapassar se não fosse a maravilhosa eclusa. Então, essa era uma invenção atribuída a Leonardo, no entanto, foi também a China e seus chineses que criaram o mecanismo. Isso porque os caras fizeram um canal navegável, há muito tempo atrás, que passa por boa parte do país. Para gente ter noção da dimensão, é um canal que possui uma extensão como se saísse de Porto Alegre, e chegasse até Cuiabá. Impressionante! Os caras cavaram aquilo, milhares de chineses passaram um bom tempo dedicando-se a esse processo infindável de abrir canal pelos estados e cidades e aldeias. Tudo isso pro comércio fluir melhor.

A China inventou a pipa e, depois disso, o flanador, usado como inspiração para os modelos posteriores de aeronaves. Santos Dummont já era!

Na agronomia então nem se fale. Os chineses eram expert’s. Inventaram o arado, a bomba d’agua para a irrigação, os restaurantes etc. A TV me conta, inclusive, que, a partir de então, o imperador começou a fazer encomendas de refeições para esses lugares, inventando assim, o primeiro serviço de buffet. Olha que coisa! Acho que não é a toa que hoje é uma economia potencial. Eles devem estar inventando cada vez mais coisas.

2 de agosto de 2007

Eu preciso de dinheiro.

___________________De rumo.

___________________De ar fresco.

___________________De luz do dia.

Eu preciso voltar.

______________Ir.

______________Estar.

______________Ficar.

Eu preciso de palavra e verbo.

_________________________De silêncio.

_________________________De batucada.

Eu preciso calar.

_____________E falar.

27 de julho de 2007

Ponha sua saia mais bonita.

Nós vamos sair para tocar o ar.

Se chover, respiramos água. Se ventar, a gente deixa o cabelo bagunçar.

Vamos descalços. Deixa o chão tocar.

Não importa se grama ou pedra, tem mais importância pisar.


Abra suas mãos.

Deixa o mundo passar entre os dedos.

Não há nada que não se possa apalpar.

Feche os olhos e ande às cegas.

Confie no embalo do som das coisas.

Depois abra e conte quantas cores existem a cada quarteirão.


Há mais vida no imprevisto que na razão.

19 de junho de 2007

Sobre o fim.

Nada se faz pensando no advento do fim.

A ação é intuitiva. Por mais que ela seja orientada pela racionalidade.

A técnica não prevê o fim. Prevê sim a construção de meios para um fim proveitoso.

O fim, embora sempre chegue, não é o alvo de quem inicia algo.

Um bom texto começa a ser escrito a partir de um bom final.

A vida é uma construção de meios para a lembrança alheia de um bom final.

8 de junho de 2007


Compartilhando...


Assisti "O poderoso chefão", dias atrás.


Até agora o filme não me saiu da cabeça.


Em tempo, tive vontade de fazer parte da máfia italiana.


Seca. Suave. Fria. Calorosa. Inteligente. Perspicaz. Racional etc e tal.
(esta foto está protegida pelas leis do
copyright, infelizmente)

8 de maio de 2007

Eu tinha um sorriso calmo naquela época. Os olhos serenos como se houvesse ali um rio calmo refletido.

Eu tinha os pés dançantes, inquietos para girar conforme o vento que rodopia em seu percurso que anuncia tempestade.

Eu tinha as mãos afáveis. Acariciando os cabelos dos meus amigos. Todos os dedos entreabertos para sentir a passagem da chuva.

Era um tempo em que as aflições eram causadas por mim e se não as houvesse, eu talvez as procurasse, só para sentir o palpitar mais forte do coração que caminha sem saber para onde ir.

Tinham mais forças as minhas palavras, era mais pungente a minha coragem, era mais desafiadora a minha luta.

Caminho por um oceano de incertezas, alçando velas e contando histórias que não aconteceram. Descobrindo os sete mares e descobrindo que os mares estão cada vez mais menos querendo ser descobertos.

Tenho medo de endurecer. Medo de acreditar cada vez menos e fazer dessa chaga um caminho a se traçar. Medo de temer as pessoas e perder a confiança no meu igual.

Confio num futuro fugaz .Tremulamente construído a base de sonhos e divagações.

Não vejo um palmo a frente. Só espero a onda passar.

23 de abril de 2007

[O mundo - caquinho de vidro -
tá cego do olho, tá surdo do ouvido
O mundo tá muito doente
O homem que mata, o homem que mente]
Zeca Baleiro, Chico Cesar, Lenine, Paulinho Moska


Não existe nada de errado em querer mudar o mundo, existe? Afinal de contas, ele é chato, trata as pessoas de maneira desigual e anda caduco, como bem nos adiantou Drummond décadas atrás.

Tenho percebido que o mote “mudar o mundo” virou símbolo de uma juvenília sonhadora. Conformar-se se tornou símbolo de amadurecimento. Mas isso não deveria ser assim, deveria?

Afinal de contas, mesmo o mais feliz dos seres sempre encontra algo do que se queixar. Sempre aponta que algo está errado. E o que a gente faz quando algo está errado? A gente concerta, muda. Isso é uma unanimidade, todo mundo diz que o mundo está errado. É por isso que eu me pergunto: O que há de errado em querer mudar o mundo?Ou então mudar o mundo tornou-se sinônimo de adultecer? Então lá um adulto nunca muda o que está errado?

Partindo de uma constatação absolutamente empírica, não vejo que isso é o que realmente acontece. Então porque não querer mudar o mundo? Ou pior, considerar que quem o quer mudar é apenas um imbecil sonhador?

Sabe aquela coisa bem velha: se não quer ajudar, também não atrapalhe? Pois é, acho que deveria ser assim! E olha que mudar nem sempre envolve grandes riscos. Há mais riscos em deixar rolar o que errado está. Então, por favor, se eu sou a fim de mudar e você não, também não vá torcer para que isso não dê certo. Até porque, o mundo que eu quero mudar não é só meu, é seu também.

É do rico poderoso que vive muito bem obrigado, mas sempre com medo da violência que o espreita, quanto do cara que todos os dias vende balas nos trens para dar de comer aos seus filhos e tem outros medos tantos.

9 de abril de 2007

Sempre é assim quando eu vou e piora quando eu volto. Sempre a melancolia, a última cerveja, as roupas passadas na mala já rasgada, a saudade dos tios, a despedida na rodoviária pequena e escura. Sempre o cigarro antes da partida.

É assim todas as vezes. Eu teimo em ir, eu me arrependo de ficar e me entristeço ao sair.
Quem sabe seria melhor se eu não mais voltasse, mas também não serviria de nada a ansiedade que guardaria ficando por aqui. O fato é que eu sempre acabo indo, sempre hesitando antes de decidir ir, sempre com preguiça e cabisbaixa por ter de voltar.


Para quem não percebeu, cá estão, escondidas na subjetividade, as angústias de quem abandona sua terra, mesmo que não seja ela, natal.

É difícil explicar o vínculo com a terrinha, é tentador rompê-lo, é impossível conseguir. São as pessoas que te viram crescer e a liberdade que se tem no convívio, a saudade de só estar junto. Depois tem também aquelas vidas que fazem parte da sua de tanto que a gente sabe sobre elas. Interior né? Só observando tudo isso é que a gente consegue pensar naqueles autores que pensaram a comunidade e o lugar do indivíduo nesse contexto teórico e maluco entre sociedade e comunidade. Se eu me permitisse, se eu concordasse comigo, se eu ousasse distribuir conselhos, diria a todos que experimentassem uns meses no interior.

Vicia.

5 de abril de 2007

Ah, se os tempos fossem outros! As perguntas e afirmações seriam também diferentes

Machado de Assis bloga no terreiro de Mãe Menininha do Gantois, que também já passou dessa para melhor

28 de março de 2007

Todo mundo vê as pinga que eu tomo, mas não vê os tombo que eu levo

Conhece o ditado? É exatamente assim.

Só adiantando o assunto ao leitor com mais expectativas, esse texto não será nada além de um desabafozinho. E digo desabafozinho porque eu não sou lá mulher que vai fazendo da internet seu diário pessoal, esperando que alguém se comova com minhas aflições e besteirinhas.

Tá, vá lá, que implicitamente sempre tenha algum desabafo real, mas é algo que sempre carrega uma dose de sutileza, que tem mais sentido para o que o leitor gostaria de entender, que para a farsante escritora que vos fala.

Mas voltando ao ditado. A sabedoria popular não tem erro. E olha que eu tento sempre fugir das generalizações e das regras que as pessoas ingenuamente se impõe. Sempre fui mais a favor das descontruções. Mas de repente, lá no meio do seu caminho florido: PIMBA!

E vem a realidade da sabedoria popular a nos fazer meter os pés pelas mãos. Aquela velha estória infantil de não parar para conversar com o lobo mau. Ou seguir o conselho do irmão mais sábio e construir a casa de alvenaria, ao invés de palha e madeira.

Mas não. Eu nunca faço nada disso. Eu sequer escuto conselhos. Mesmo que eu ache que conselho quase nunca serve para alguma coisa. A experiência do outro nunca nos comove a ponto de não pisarmos naquela casca de banana que a 100 metros à frente, alguém alertou.

E fim. Continua no próximo tombo.

24 de março de 2007

Pelo buraco da fechadura é possível enxergar uma luz que vem do apartamento da frente. Uma luz cálida, que compõe o ambiente do lugar. Paredes de madeira escura proporcionam um clima de resignação.Sentado à poltrona repousa um senhor de certa idade. Ele olha para dois lados opostos e começa a se lembrar de coisas que viraram fotografias.

– Porque é assim que as coisas são - pensa o senhor, já elaborando teorias sobre suas próprias lembranças. – O que faz a gente viver com tanta vontade certas ocasiões e depois perceber que elas não mais existem como coisa em si e futuramente, serão somente fotografias, paradas, com os sorrisos congelados e o vento que já passou pelas folhas das árvores. O tempo que a gente viveu naqueles quintais de terra e flores mal diagramadas por deus.

19 de março de 2007

O motivo é o motivo que falta.

22 de fevereiro de 2007

Quem é Teodora Maria?

Teodora Maria não sabe escrever, embora ela pense que sim. Coitada!

Teodora Maria não faz planos. Tem mania de esperar que os planos a façam.

Teodora Maria tem inveja da vida da novela. Passa horas pensando que poderia ter uma vida daquela.

Teodora Maria gosta de Capitu e Macabéa. Uma porque não capitulou e duvidou, outra porque se sente perdida na metrópole.

Teodora Maria não tem tempo. As vezes ela acha isso bonito. Outras vezes ela gosta do tempo que falta.

Teodora Maria gosta do sim e do não. Mas gosta mais do sim.

Teodora Maria não tem chão, ainda não achou o seu. Embora ela não procure.

Teodora Maria gosta de cerveja e de botequim. Também gosta de comida congelada.

Teodora Maria quer escrever. Mas Teodora Maria não sabe de nada.

(E, além disso, ela não sabe escrever. Coitada!)

13 de fevereiro de 2007

É uma felicidade barata, mas é dessas que não se encontra pra comprar em qualquer lugar. E também, por mais que o mundo funcione assim, felicidade não é lá algo que se compre. Um sentimento que surge sem nenhuma razão, ou até pior, surgiu em meio a condições adversas de tempo, espaço, clima, pressão atmosférica, luz, som, tudo. Às vezes é a própria vida que surpreende, mesmo que a gente não mexa sequer um pauzinho pra colaborar.
Talvez seja também o fato de que a gente não se deixa surpreender. Porque todo mundo tem um certa mania de previsibilidade e age mais diante dela, por mais que gostemos do imprevisto e que enxerguemos mais vida nessa lacuna do inesperado.


[Não sei porque eu tô tão feliz
Não há motivo algum pra ter tanta felicidade
Não sei o que que foi que eu fiz
Se eu fui perdendo o senso de realidade
Um sentimento indefinido
Foi me tomando ao cair da tarde
Infelizmente era felicidade
Claro que é muito gostoso
Claro que eu não acredito
Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito]

(trecho da música Felicidade, de Luiz Tatit, bom lembrar que essa música não está em CC's, como o resto do blog)

5 de fevereiro de 2007

Aprenda a ser sozinho.

Essa é uma lição quase constante.

29 de janeiro de 2007

O que eu não sabia era que o medo do adulto pulsa como o da criança.
Lembro-me bem das noites insones da infância em que me escondia nas asas de meus pais e isso me bastava.
Penso hoje que o medo que tinha antes, nada tinha a ver com a realidade. Hoje é ela que me amedronta.E a falta de sono de hoje em dia, me espreita com um violência desmedida.

8 de janeiro de 2007

felizanonovo.


PINGO DE TEMPO

RESPINGA


TEMPO PINGA SAUDADE

ANO QUE VAI É O MESMO QUE VEM

MUDA É O COMEÇO

ACABA NO FIM

E RECOMEÇA .

SEMPRE.

19 de dezembro de 2006

Mudar de casa é também não pertencer a lugar nenhum. E eu moro em muitos lugares. Vou deixando marcas por aí!

E quanto mais eu quero por os pés no chão. Mais é que a vida me empurra porta afora e me manda procurar um lugar seguro, dizendo que o outro já foi-se!

Então eu ando no limiar da rua, com a cabeça voltada ao céu e aos prédios procurando meu novo lar por infinitamente um ano!

E tudo o que eu tenho é preguiça de não pertencer a lugar nenhum.

Quero uma casa com quintal, jabuticabeira e uma mesinha de madeira colorida com um guarda-sol velhinho, de tecido já meio desbotado.

Uma rede amarela e uma videira.

Há de ter terra preu pisar. Há de ser fresca, umedecida pela garoa.

Também uma vitrola antiga preu cantar e dançar.
Mas, por enquanto, me resta a altura da paisagem que vejo através das janelas dos arranha-céus.

5 de dezembro de 2006

Foi andando na chuva para entregar um pouco do que sobrou de seus dias. Lá vai ela de guarda-chuva à postos. Pronta para mergulhar no céu cinzento e no asfalto molhado. A cada canteiro ia deixando uma lembrança, uma esperança e uma idéia. Na verdade ela ia se desfazendo das suas próprias penas e voltando devagarzinho à realidade.

Girou o guarda chuva como nas danças de frevo. Resolveu fechar. Mesmo que a chuva seja ácida ela ainda assim deve cumprir a função de lavar a alma. E, apesar de cair do céu, nada prende mais uma pessoa ao firmamento que a chuva.

Tinha um poema na cabeça e compunha mais um verso a cada farol vermelho. Foi desvendando seus pés, seus sapatos encharcados, os pingos de chuva na calça, no casaco.

Chegou ao destino traçado obrigatoriamente e deixou sua última fantasia. Antes disso, certificou-se de que ela não lhe iria sair seguindo sorrateiramente, se escondendo através dos postes de luz, ou das árvores mal plantadas.

O trajeto de volta ela fez diferente. Cada coisa já estava no seu lugar. Fez isso para não ser perseguida pelas coisas que havia abandonado no caminho. Ora, se ela as havia abandonado, mais conversa com aquelas coisas é que ela não queria.

Depois disso foi procurar o que fazer, não que houvesse, mas seria possível criar.

24 de novembro de 2006

Hoje eu subi no andar mais alto de um prédio para tomar café e esquecer um pouco. Várias outras janelas de vários outros prédios estavam abertas e eu gostei disso. Quartos com cara de quartos. Salas com jeito de salas. Tudo arrumado, organizado e empoleirados uns sobre os outros. Eu me senti pequena e grande. Pequena porque a gente é só mais um nessa cidade, e isso faz com que a gente se sinta sozinho. Grande porque, por mais que o todo seja uma merda, é bom fazer parte de alguma coisa.
Além de tudo, várias músicas passavam pela minha memória, com a melodia tão nítida que eu quase podia ouvir realmente as vibrações das vozes e dos instrumentos.
Num dia assim, com o sol já quase se pondo e o céu já ganhando um alaranjado de fim de tarde. Não precisei de óculos escuros.
A gente segue seguindo até onde dá pra ir. Depois disso fica difícil. E a vontade que dá é a de seguir o conselho de Raduan Nassar e preparar-se para dar um salto e deixar que o mundo te embale.

Aí pelas Três da Tarde
Raduan Nassar(para José Carlos Abbate)

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.


Texto extraído do livro "Menina a caminho", Companhia das Letras - São Paulo, 1997. pág.71.

[importante lembrar que esse texto do Raduan Nassar não está licenciado pelo Creative Commons, como todo o resto do blog, só observação]

16 de novembro de 2006

nem se atreva a me dizer do que é feito o samba

Eu quis compor o samba do silêncio e lembrei que samba nada tem com o silêncio. A não ser o silêncio que a platéia deve fazer quando o samba tocar.Aliás, nem isso. Samba que é samba deve ser cantado a mil vozes.

Mas então para que afinal hei de compor um samba silencioso se nem mesmo sei compor. O que faço é juntar palavras que não servem para música nenhuma. Serviriam talvez para a construção de um poema dadaísta. Fossem elas recortadas em folhas de papel e dispostas sobre a mesa.

Leite com café também não combina com samba. E isso é justamente o que está em minhas mãos. Além disso, se for o samba que imagino, mal caberia compô-lo aqui. Frente a uma máquina sem a roda de uma pessoa que seja ao meu redor.

Percebo que o samba anda sendo questionado e creio eu que o samba nada tenha com as questões. A não ser aquelas que afligem a alma. Mas por causa de que havemos de questioná-lo?

Se samba tiver filosofia, acredito que eu não deveria entrar nessa discussão. Nem me meter a pensar sobre o samba. Logo eu que queria compor um samba em silêncio.

Deixo o samba para os sambistas e me comprometo a não teorizar mais sobre ele. Melhor assim. Antes que o samba não faça mais sentido para mim.

14 de novembro de 2006

Dá pra entender? Bem vindos à Gonzolândia! Salve Hunter Thompson


Este será um texto sério. Cheio de virgulas e palavras concretas.Minha mãe não me pertence mais.Racionais mc´s 02. O mundo livre me tem como vocalista, o cantor Fred 04. Mas eu sou metade e por isso 02. Metade de Fred04 eu sou.
Metade Fred04 eu sou.
Fred 04 metade eu sou.
Eu metade 04 Fred sou
Zero 04 é o dobro de mim.
Dobro de mim Fred04 é.
Duas vezes de mim, Fred04 é
Relaxa,balança, dança.
Lá,lá,lá!!!!
Cerveja azul é Antarctica, cigarro LM também é azul.Marisa monte é azul? Se sim, Arnaldo Antunes é verde e tropeça sem medidas em Fernando. Pleno show do seu Jorge, vulgo Mané Galinha.
E o Carlinhos Brown é marrom, porque é negro. E ele é bonito, e tem uns dreads bem legais.
Tudo isso não tem valor sem ter você, porque você tem o perfume das rosas e vale qualquer canção vagabunda. Menos ainda, vale tanto quanto um texto mal escrito da Márcia louca. Aliás você não merece texto algum. Você merece uma frase publicitária bem porcaria.
Quando eu te vi achei que você tinha um tênis amarelo. Mas o tênis era azul. E assim a gente entra na discussão novamente. Discussão, eu gosto. Política, pessoalmente, tanto melhor!!
Aliás, o que eu queria dizer com isso mesmo?

13 de novembro de 2006

Filme. (com o perdão de Lilian Ross)

Hoje eu queria ver um filme bem previsível. Daqueles cujo final o mocinho fica com a mocinha e todos são felizes para sempre. Que o problema é um desencontro em qualquer lugar, ou melhor, desencontro que é, não há de ser em lugar algum. Um filme que não tem história, nem filosofia e que o maior problema é como chegar até o outro. Um filme assim, bobo.
Sabe!? Eu sabia que isso ia acabar acontecendo!

E, na verdade, eu acho que tenho medo! Medo de verdade.

3 de novembro de 2006

Diálogos torpes e entorpecidos.

[as vézes os diálogos saem imprescindivelmente como são pensados]

- Os hipopótamos estão em extinção?

(longo silêncio)

-Eu nunca vi um hipopótamo!

24 de outubro de 2006

Eu sou uma mistura de vontades!

é isso!

23 de outubro de 2006

A nossa raiz caipira

No lobby do Centro Cultural Vergueiro, era possível avistar uma fila que conduzia ao salão de shows. Já se entoava uma música doce, um tilintar de instrumentos delicados que sacudiam de leve os pés do público enfileirado. Podia-se ter a impressão de que muitos não conheciam, ou não sabiam o que os esperava, de outros, a felicidade no rosto denunciava o encontro de amigos que ali se consumaria.
Ao entrar no salão era possível perceber a ansiedade de alguns e a curiosidade de outros, transeuntes que ali foram levados pelo tocar macio da viola ainda em teste. Devidamente sentados, o espaço da platéia foi tomado pelos dançantes de trajes coloridos, que invocavam poemas ritmados, dançando ao som de sua própria cantoria. Os brincantes dão espaço ao som da viola caipira, reforçado pelo som da sanfona regida pelo mestre cego. Houve aqui a prova silenciosa de que a arte é regida mais pela sensibilidade. O cantador, Oswaldinho Viana, falava da saudade que se tem de um lugar. Mas o público percebeu que essa saudade deveria existir para que ele pudesse cantar esse lugar. Esse que é a saudade de todos nós, da gente que vem do interior, ou das raízes que um dia plantaram por nós lá. Marisa Viana depois se confirmaria paulistana e cantante do interior, dessa saudade que alguém por ela plantou lá. Enquanto os músicos estavam no palco, o silêncio na platéia era absoluto. Dava para perceber aqueles sorrisos de lado, como quem se deixa levar pela música, ou se encanta quando ouve um acorde bem tocado.
Uma infinidade de 25 músicos revezaram-se no palco, com os mais diversos tipos de instrumentos. A voz doce de Marisa misturou-se ao recado da alfaia, aos sons de sua percussão interiorana, ali de onde se ouviam passarinhos e o som dos sinos dos ventos levavam a gente pra longe de São Paulo, ali em plena Vila Mariana, do lado da Avenida Paulista. Oswaldinho, ele também silenciou ao evocar Piraju, sua cidade natal, falada em tantos versos, a cada estremecer das cordas da viola. Foi acompanhado pelo violino, que com se lamento triste pôs espectadores, inclusive esta que vos fala, a chorar.
Era uma saudade que pertencia a todos aqueles que saem de casa para buscar uma vida que ainda não se conhece, mas que se constrói porque a própria vida, essa não pára nunca, e tudo o que dá é saudade.

17 de outubro de 2006

é!

Eu queria ter um cachorro!

16 de outubro de 2006

Observações.

Esse é um tempo nefasto de homens entristecidos. A Era que manda notícias e nunca tem tempo.

Desesperanças no pé do ouvido e gosto amargo na boca.

Tempo de conflitos e politicagem. Tempo da máquina sobreposta ao homem.

Tempo da diversão programada. Dos sentidos e sentimentos calculados.

Esse é um tempo que não se é permitido esquecer. É necessário vingar e vingar-se.

Tempo de frases curtas, pensamentos longos e ainda assim, obrigatoriamente ágeis.

Uma mistura de vidas, de buscas e desejos inalcançáveis. Tempo de fuga e fugacidade.

Sobriedade servida em bandejas e oferecida aos quilos. Como tudo o que deve ser exagerado.

8 de outubro de 2006

E hoje essa cidade tem um cheiro e um gosto diferente.

Tem um sol bonito lá fora, e tem o clima das tardes do meu interior. E esse dia desperta a vontade de fazer tantas coisas, de estar em muitos lugares.

Vem da falta que estar lá me faz. E vem da sobra da nostalgia que vivemos ontem. Há algumas horas.

Mas esse cheiro e esse gosto andam me confortando. Traz na minha pele uma sensação familiar e mesmo assim inenarrável.

"Tem certas coisas que eu não sei dizer"

2 de outubro de 2006

Muda que muda que a vida é curta e a gente tem tempo não!

Muda que o tempo não pede licença e nem assovia quando pede perdão.

Muda que muda que o vale na vida é a “experimentação”.

Muda que muda o presente, constrói o futuro e deixa o passado só pertencer ao coração.

Muda que a gente gosta de ver. E paga por isso.

Muda que eu to atrás de você esperando para saber se deu certo ou não!

Muda que o risco vale mais que o senão!

Muda que o corpo pede, a alma cobra e a saudade investe.

Muda.

Muda.

Mude.




Vai ser gauche na vida. [De uma grande amiga para mim]

25 de setembro de 2006

Diálogo do avesso

- Não, não! Eu não sorri não! (Sem graça). Só dei uma olhadinha de lado para ver se eu via.

- Via o quê?

- O seu sorriso de lado. Você sorriu não sorriu?

16 de setembro de 2006

Uma cena qualquer.

Ela entrou pela porta, cansada, foi se livrando das coisas que pendiam sobre seu corpo e, delicadamente, em uma bagunça quase milimetricamente pensada, repousou as bolsas e pacotes pelo chão. A face mirava o assoalho e a visão não possuía qualquer objetivo. Não acendeu a luz. A claridade que vinha da rua parecia sutilmente mais bem vinda e delicada.


Caminhou até a cozinha e pegou uma taça e uma garrafa de vinho. Sentou-se ao sofá e derramou sorrateiramente o liquido púrpura nas encostas do copo de espessura fina e fria. Encostou sobre os lábios e pôs-se a sorver o líquido como quem absorve a própria vida. O silêncio era suficiente, o barulho dos carros e a música orquestrada da cidade que termina o dia, tocavam uma harmonia que ela quase podia bailar. O silêncio da observação.

Insistentemente tomou o jornal do dia nas mãos. Limitou-se a ler seu horóscopo que insistia em demonstrar a previsibilidade da astrologia e a consulta inútil sobre seus próximos passos. Era o pedaço de uma história que ainda ninguém havia escrito.

Deitou-se. Cerrou os olhos e ainda assim era possível sentir a lágrima salgada e quente que contornava as curvas da face. Era o dia seguinte que ela esperava chegar. Esse dia que sempre espreita à nossa porta, mas que em chegando, nada mais é que esse mesmo dia em que se espera o que virá depois, dali às outras vinte e quatro horas.

De bruços na cama, sentiu o cheiro macio do lençol que acabara de chegar da lavanderia e que ela havia disposto sobre o colchão de maneira que não o amassasse. Adormeceu.

O sono tranqüilo foi interrompido por um toque que massageava carinhosamente sua testa, no curto espaço acima do nariz e entre os dois olhos. E, com dois olhos negros também se deparou assim que se dispersou da sonolência. Era ele.

Havia acabado de chegar e cumprir um trajeto que observava cuidadosamente os passos dados por aquela que ele conhecia tão bem. Quase podia imaginar seu rosto e a expressão lânguida que a tomou assim que entrou pela porta de sua casa. Deitou-se ao seu lado na cama, por ora, quente. Olhou-a longamente, até resolver acariciar-lhe a tez adormecida. O silêncio fora quebrado pelo jazz ronronando na vitrola antiga. Era possível ouvir as pequenas imperfeições que a agulha do aparelho causava nas ondulações do velho disco de vinil.

Assim ficaram durante longas horas. Olhando-se como se o mal-fadado passar do tempo não lhes tomasse de assalto. É esse o medo de quem não quer ir embora.
Abraçaram-se com cuidado. As palavras foram adiadas para o próximo encontro, que também assim, deveria ser, sem circunstância propícia ou planejada.

Despediu-se sem nada prometer. E ela assim o queria, sem juras curtas de um amor infindo. A surpresa agradava mais que o compromisso acompanhado de flores vermelhas. Foi-se assim.

Ela, tendo ficado, tomou mais um gole do vinho e dormiu sobre os cheiros confundidos, deixando o saxofone tripudiar sobre a dor que não a havia alcançado.

10 de agosto de 2006

"Rio, quero ser a curva que contorna a Urca, ou aquilo que remete ao samba, Rio, quero ser a crista que contorna a onda, e quebra em mim"
(Paulo Vigu)

Assim, sem explicação nenhuma, tive saudade do Rio de Janeiro. E explico a falta de motivo. A cidade é bela, belíssima. Dona de paisagens que jamais vi iguais nos meus curtos 20 anos. Estando lá, desisti de um dia morar na cidade maravilhosa. Eu que sempre morei nessa hipótese. Mas preferi a prisão workaholic da também São Paulo. Não tenho nenhum vínculo afetivo com a cidade, além do de ser brasileira. Praia não é meu passeio favorito, já que prefiro a montanha e o frio.
Eu sinto falta do cheiro de maresia que qualquer cidade banhada pelo mar possui. Mas que lá é diferente. Talvez porque no caminho, ainda na Dutra, fiquei construindo um Rio de Janeiro imaginário. Cheio de pré-idéias que construía em minha arquitetura subjetiva de Rio de Janeiro. Eu sinto falta do que sem querer, aprendi. Das bermudas passeando pelas ruas e dos bares com mesas na calçada. Estátuas históricas desfilando pelas calçadas ornamentadas pelas tradicionais ondulações azuis. Qual o mar que nem sequer pus os pés e deixei assim uma irmã inconformada. Sinto falta das risadas que dei com uma amiga enquanto passeava por bulevares repletos de arvores frondosas. Algumas coisas eu consegui entender. Coisas que eu imaginava através das músicas que narravam o lugar. Das pessoas mais despreocupadas. Das favelas que se mostraram iguais ao que sempre vi em pérolas do cinema nacional e da minha vontade de entrar para ver e conhecer. Mas não uma curiosidade dos que vêem a pobreza como atração turística da esquerda. Mas saber porque enfim eu não nasci ali, mas aquilo indiscriminadamente mora em mim. Assim como todo o Rio. Não pertenço a ele.Mas ele a mim, ah, isso sim.

21 de julho de 2006

Vinho. Cigarro. O agora e o daqui a pouco. O que eu espero e o que me surpreende. Eu sonho acordada. Eu sonho dormindo. Eu sonho o tempo todo. Não há quem resista à incapacidade de sonhar. Espero. Aconteço. Devagar. Sempre. Em frente. Acostumo-me, mas não deveria. Não me acostumo. Quero. Abdico. Tudo o que será. Tudo o que não é. Palavras vazias. Texto completo. Não fiz. Eu quis. Deslumbre. Ceticismo. Falta encantamento pra ver a poesia da rua. Sobra alegria com pouco. Engano e desengano. Acredito e acredito. Duvido, mas é por pouco tempo. Eu encho a página de palavras. Eu entendo. Eu questiono. Eu tenho de me acostumar. Não sei viver sem algumas coisas. Outras preferia não ter. Eu não choro mais quando ouço aquela música. E nem sorrio mais quando leio aquele poema. Ônibus todos os dias no mesmo horário. Caminhadas pela mesma rua. Elaboro teses. Descontruo teses. Leio. É pouco. É tudo tão pouco!

14 de julho de 2006

"sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 2006"

Estou aqui fazendo as malas. Colocando todas as roupas que julgo importante e que estão espalhadas pelo chão do quarto. De repente me dou conta da bagunça que está o meu quarto. Não só o quarto. A casa toda. É o meu próprio retrato. Jornais espalhados pelo chão e empilhados por sobre um banco. Os livros que eu não consigo parar de comprar. Os discos que ganhei e que até agora não coloquei no aparelho de som para ouvi-los. Posso estar perdendo uma grande descoberta musical. Mas é que agora eu prefiro ouvir aquelas canções que eu já decorei e que estão gastas. Também é o meu retrato. Medo de descobrir o novo, mas ansiosa por ele. Só que ainda não coloquei no aparelho de som. Sempre gostei de ficar sozinha. Só assim é possível descobrir. Hão de perguntar se há algo a ser descoberto. Sim, claro que sim. Tudo está a ser descoberto.
Fico aqui pensando se não há algumas coisas que eu deva mudar. Tipo colocar os livros na estante e separar os discos que eu ainda não ouvi. Mas gosto deles assim. Espalhados, esperando que um dia eu olhe para eles e diga que chegou a hora. Todas as coisas que eu não vivi e todas as coisas que eu já vivi. E que hoje são sorrisos. E lágrimas. Mas que foram coisas em si. Existiram. Mas agora eu preciso terminar de arrumar as malas.


em tempos de guerra eu é que não quero ficar calada.

19 de junho de 2006

RUAS

Há quem diga que as ruas têm coração de pedra, mas ali, por entre elas, era a minha vida que eu via passar pelos meus olhos. Cada uma em que adentrava me contava minha história, respirando por entre as frestas dos paralelepípedos sufocados pelo asfalto. Não foi pedra que eu vi por ali. Passeando pela cidade que há muito sentia falta. Foi vida.

Eu consegui ver minha infância nas ruas que circundam as praças. Pude me ver menina, fazendo descobertas, deitando no chão e olhando as copas das árvores e as flores que prendiam nos meus cabelos longos. Mesmo escuras, lembrei da luz que o sol trazia e aquecia minhas tardes à beira do rio. Entrei por entre ruas e ouvi o som da voz dos meus amigos inventando brincadeiras. Revivi minhas incertezas enquanto descobria meus amores. Foi nos seus cantos escuros que eu me escondi. Foi por entre elas que meu caminho começou.

Hoje sinto que as deixei pra trás. Assim como quem passa e abandona um pedaço de si nos corredores vazios de luzes amarelas. Deixei para trás o que me serve para construir os caminhos que hoje traço. Em busca de outras ruas me senti sozinha. Procurando um futuro prestes a iniciar-se.

Naquelas ruas eu vi tudo o que sou e entendi. O tempo não me castigou, apesar de ter me roubado as ruas em troca de outras. O tempo me deu o que chamamos de lembranças. E eu me presenteei com todas as minhas conquistas. Com todos os meus sorrisos e lágrimas. Todos os medos, incertezas. Todas as músicas e poesias que aquelas ruas me deram quando procurei por elas.

Não há de ser pedra o que a rua me contou.

5 de junho de 2006

A Louca de Higienópolis – Parte 2 – A pensão da Barão de Tatuí.

Uma boa história nunca acaba. Ao menos para quem fareja fatos novos ainda desconhecidos.
Por um caminho nunca dantes percorrido, o bairro a princípio é Higienópolis. Saindo das ruas que na maioria das vezes tem nomes de estados brasileiros, entro no famoso Bela Vista. Centro de São Paulo. Ando por ruas cheias de prédios soberbos que depois contrastariam com o lugar que procurava.

Esclarecimento à população: Seu Salvador e suas inquilinas não são doidos! Pra dizêr qué, eu, márcia não morava lá, eu um quarto e cosinha sósinha. Até: morei. Muitos anos, lá. Morei 15 anos e 7 meses na pênsão dele desde 1984 até 1998. agosto.

O combustível da curiosidade foi a dúvida de quem descobre um lugar mas questiona sua existência. Com um endereço nas mãos, chego ao pé da rua que começa em outra, Jaguaribe. Desço atenta à numeração. O garbo é deixado para trás. Chego enfim ao endereço riscado no papel. Rua Barão de Tatuí, 493. A primeira reação foi o espanto. Causado pela verdade de um lugar que existia, até então, somente em folhas de papel manchadas de tinta de caneta. Uma pensão marrom, silenciosa. O lugar possui três portas. Uma por onde entram as inquilinas, outra comercial ou algo que lembra uma garagem e a terceira que parece dar acesso à casa dos donos. Na primeira porta de entrada uma placa: Aluga-se vagas para moças. Diminuo a marcha, exatamente à frente do número 493. Do meu lado, uma janela de onde se é possível ouvir uma música lenta, que não identifico. Ambientada por uma meia luz suspensa no teto. As paredes têm cor de tijolo cru.

São Paulo 27 de maio 2006. Aqui sou eu. Márcia da pensão de seu Salvador. Barão de Tatuí 493. Estou morando na rua desde 09 de agosto de 1998. Quando puseram energia atômica pra me matar na Barão de Tatuí 493. Julho Agosto 1998.

Sem saber ao certo o que fazer, entro num bar. Penso em perguntar algo sobre a misteriosa pensão, mas desisto. Todos estão muito ocupados assistindo ao futebol na televisão. Então volto. Passo na frente do lugar novamente. Dessa vez há uma senhora na porta, que acaba de chegar de seu trabalho. Sorri para mim. Ela tem nome de santa e me deixa à vontade. Pergunto a ela se conhece a Márcia, aquela que escreve e prende seus textos no muro da Avenida Higienópolis. A senhora responde como quem tem pena. Conhece e conta que a escritora foi “enxotada” da pensão. Relata que o dono, cujo nome aparece frequentemente nos textos, não perdoa sequer um aluguel atrasado. Conta também que ouviu falar que Márcia usava drogas. A senhora mora ali há quatro anos e meio e não é contemporânea da “louca”. Descubro que no natal do ano passado a poetisa deixa uma carta na caixinha de correio. Amaldiçoa os moradores e promete vingança.
No caminho de volta, me deparo com uma árvore circundada por mais textos de Márcia. Tiro da árvore e vou embora, cheia de possíveis histórias na cabeça. Agora, depois do contato com a pensão, ainda mais pulsantes.

26 de maio de 2006

Sobre como olhar o caleidoscópio.

“Eu não tenho medo, eu não tenho tempo, eu não sei voar”.
[Zeca Baleiro]


Às vezes a gente pensa que não se conhece e isso se torna uma máxima. Tanto é verdade que, diante de uma pergunta sobre o que há de mais verdadeiro em nós, um branco imediato toma conta do pensamento. Faça o teste. Eu não me conheço mesmo. Eu acho. Eu mudo. Eu anulo. Eu construo. Eu gosto.
Alguém poderia me fazer o favor de passar a fórmula da organização juntamente com a cartilha que ensina como se constroem objetivos fixos? Os meus não me bastam. Tenho a impressão que minhas vontades andam espalhadas pelas ruas me procurando e, quando passo por elas, assim como quem passa ao lado de um poste, elas se fixam em mim, viram minha vida do avesso e constituem-se como os novos planos pra vida inteira da última semana. Acho que viver é olhar pelo caleidoscópio cuja abertura nunca nos vai mostrar as mesmas figuras que desde as mais complexas e belas até as mais simples, nunca se repetem. Assim é o cotidiano da inconstância humana, cronometrada por minutos imutáveis e intransponíveis. Não temos muitas chances de arrependimento, mas temos a expectativa de futuros “bem aventurados”, de novas cores e formas. Embora isso seja pouco. Eu quero é olhar através do meu caleidoscópio para ter a certeza de que as figuras não se repetirão de verdade. Eu duvido. Eu pergunto. Eu acredito. Eu abandono.

“Precário, provisório, perecível; Falível, transitório, transitivo; Efêmero, fullgás e passageiro; Eis aqui um vivo”.
[Lenine]


Eu amo as pessoas por um tempo, apesar de intenso, dura pouco. Não me limito a uma quantidade de amores - todos eles de todos os tipos e sabores - adquiridos. Quero centenas deles por metro quadrado. Só assim é possível surpreender-me.
Não sei como funciona o lema de “pessoas pra vida inteira”, pode soar com frieza, mas a importância das pessoas que fazem parte do que a gente é, é também mais relevante no momento agora do que décadas adiante. Sentimentos mudam, não anulam, mas modificam-se como as pedrinhas coloridas do caleidoscópio. É só girar. Eu giro. Eu mexo. Eu congelo a cena do filme. Mesmo que seja por pouco tempo.

4 de maio de 2006

Na Argentina.


A viagem surgiu de uma pequena idéia entre amigos, aliada a projetos acadêmicos que testaram meus conhecimentos de formas bastante distintas.

Em primeiro lugar a lingua e a velocidade com que é falada se mostrou um pequeno obstáculo e, pensando bem, apesar da barreira perfeitamente transponível, me senti culpada de conhecer mais o inglês que o idioma falado em toda a América Latina, meu território.

Depois veio a comida portenha. A europeização é exposta claramente assim que se olha para um prato de refeição. Batatas, batatas e mais batatas. E, pelas ruas largas da capital argentina, cafés, cafés e mais cafés.Embora o café tenha me parecido um bem de luxo, caro como ingerir ouro verde ou negro.

Estranhamentos primeiros a parte, é só olhar pra cima e ver o céu. Sim, sim, temos um céu muitíssimo belo mas o céu de lá era de um azul infindo e homogêneo. Penso comigo que há de ser realmente claro o céu de uma cidade intitulada Buenos Aires.

Há um forte apego ao passado no país de heróis como Perón, Evita, Che Guevara e outros tantos paladinos anôminos que um livro seria pouco para listar. E a luta não cessa, nunca.

Noção de espaço. As vezes, em São Paulo, não dou um passo sem perguntar para ter certeza dos caminhos que me levam ao destino traçado. Em Buenos Aires não fiz diferente. Mas, a priori, assustei-me com a tamanha precisão pela qual um senhor me explicou como se chegava a uma rua X. Número exatíssimo de quadras e caminhos infalíveis de transportes coletivos.

Também é bonito pensar que lá, as pessoas esperam muito mais gentileza e ganham muito mais dela do que os brasileiros, conhecidos como hospitaleiros.

Praças, muitas delas, onde habitam populações inteiras de pombas alimentadas da doação de pais que levam as crianças para passear e dar milho a esses animais.

E havia um carrosel. Que ficava mais bonito quanto mais escura a noite fosse. Com suas pequenas luzes coloridas espalhadas ao seu redor. Funciona agora na minha memória como uma caixinha de música cuja melodia eu escolho e posso segurá-la nas mãos.

18 de abril de 2006

Precisamos criar o hábito de parar.

Pare agora. Por um minuto deite a cabeça no travesseiro. Essa é uma boa técnica de des-organização. Necessária para a posteridade.

Pare depois. Desde que o tempo voe. Pare quando você menos precisar.

Pare para parar de pirar. Pare para parar o parado. Pare para parar o pé.

Pare para descansar.

9 de abril de 2006

A louca de Higienópolis.

por Priscila Basile


A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.” – Manoel de Barros
Loucura – falta de discernimento; irreflexão; absurdo, insensatez, doidice, louquice.
- Do Aurélio.

Essa poderia ser uma história de uma menina trazida do Rio Grande do Norte, da pequena cidade de Canguaretama. Aos sete anos foi levada com o incentivo dos pais ao Rio de Janeiro. Aos 15, foi trazida de lá para a capital paulista. Mas poderia ser, não se sabe se é.

Seu Paulo eu não sou maluca nem sensitiva. Nada de paranormal. O senhor com sua família me trouxe sim. Do Rio de Janeiro quando eu tinha 15 anos todos éraram. Meu pai errou mandando me buscar de Canguaretama cóntra minha vontade. Vocês eraram me trazendo do Rio para São Paulo. Por que? Não se rouba gente. Nem nada.

Grita-se nos muros da Avenida Higienópolis, localizada no suntuoso bairro homônimo, palavras de uma tal Márcia ou Tereza que, todas as manhãs faz da escrita sua cachaça. Estende-se nos portões de um clube luxuoso dezenas de folhas repletas de poesia. Há quem conteste seu lirismo, há quem não acredite nele. Talvez por não entendermos ou por procurarmos lucidez em tudo que nos cerca, torcemos o nariz para os delírios reais dessa personagem urbana.
A primeira descrição física da chamada louca de Higienópolis poderia ser esta – uma mulher loira que faz suas próprias roupas – mas talvez isso lhe fosse insuficiente. Existe algo de lúdico na construção de suas formas. Olhos cansados, às vezes assustadores, em meio aos fios loiros de cabelo. Ela abusa das fitas, de tecidos brilhosos e de um rádio que vive pendurado em seu pescoço emanando Bethovem, Mozart ou Strauss. Poder-se-ia pensar em uma boneca espalhafatosa andando pelas ruas. Não. A organização dos elementos é de uma simplicidade quase doída. Uma Macabéa paulistana cuja hora de estrela são seus textos afixados sistematicamente com galhos nas grades do tal clube.

Esclarecimento à população: eu márcia aqui : morando na rua saia verde camiseta verde blusa rosa loura.

A descrição subjetiva é impossível de se delinear. Embora se comunique pelo olhar, pela fala às vezes rude, seus manuscritos comporiam o que de mais importante ronda a história de vida dessa mulher. Embora com a pontuação complicada, algumas palavras mal alocadas, há uma consciência de mundo que cerca as obras. Nomes de instituições, governantes, mesmo usados de forma hostil, saltam do papel a todo instante.


tá pensando que eu sou sensitiva de gáris josé serra? Vigaristas da prefeitura pé de chinêlos. tá pensando que eu sou doida prefeito de são paulo? Irão de arrepender eu juro! Sou vingativa pagarão. Odeio.

Outro fator curioso, agora quase mágico são nomes de seus possíveis amores, familiares, anfitriões e personagens desconhecidos. A curiosidade maior é de quem a lê e pára para averiguar na internet a verdade detrás dos títulos. Se a teoria de que só se existe se estiver na rede, encoraja desbravadores. Digita-se um nome em sites de busca e lá está ele. Homem, aprovado com a maior nota em um concurso para a vaga de carcereiro em São Paulo. A descoberta acaba por aqui. Outro nome, mulher, empresária que promoveria um leilão de jóias em Sergipe. Através dela se chega à outra pessoa de mesmo sobrenome. Nascida em 56, sem curso superior, é babá, artesã e mora no Jardim Paulista. Um número de telefone aparece na tela. Os curiosos perseguem as pistas como quem ronda ou descobre grandes fatos acerca de uma suposta grande história. Durante a ligação e do outro lado da linha identificada pelo endereço, uma voz feminina balbucia e afirma não haver ninguém com o nome exposto no currículo. Balde de água fria. O melhor seria não procurar lógica em algo que existe por si só.

Jamais colocaria um palito na minha boca jamais tirei comida dos meus dentes com á línguá, não sou porca. Usava nos meus dentes fio dental. Nunca pús minha línguá na minha bochécha nunca usei dentadura nunca tive tic, nervoso na boca.

Todas as manhãs, perseguimos os textos deixados pela escritora que faz da rua, sua mídia. Provavelmente o faremos até que existam por lá. Há dias em que somem, penso se não há mais algum fã, além de mim e dos que já conheço. Encantados por uma história que poderia ser a da vida de alguém, caçamos densidade em algo leve e impalpável. A existência. Ela que desconstrói seres humanos, seus caminhos e trata de impor lógica aos mais sensíveis.

2 de abril de 2006

Projetos distintos não devem ser pesados na mesma balança.

Há que separar-se desejo e responsabilidade. Cada um em sua metade da balança. Embora talvez devêssemos pesá-los em balanças distintas.

O desejo e a responsabilidade devem ser separados, etiquetados, catalogados e depois, guardados em distintos compartimentos de armários ou arquivos a que sirva vistoriá-los em dias quaisquer.

O relógio deve então parar de correr. Há de se ter escolhas que priorizem o prazer. Pode ser que alguém pense: o desejo virá sempre antes da responsabilidade.

Nem sempre.

Há que prefira a responsabilidade ao desejo, ou, há quem tenha desejo pela responsabilidade.

Geralmente o ser humano, esse objeto duplo, repleto de significações e sentidos possui balanceadamente as duas opções. O que deve ser evitado, no entanto, é o atropelamento de um pelo outro.

Mas, o tempo existe. Involuntariamente somos pautados pelo andar alvoroçado dos relógios e suas conseqüências. Escravos? Quem sabe. O que se tem certeza é que realmente não podemos escolher a que horas vem um e a que horas começa o outro.

Há de se optar pelas escolhas, novamente. Escolher alternativas pré-estabelecidas por normas que a gente mesmo se impõe. E se não as houvesse, o que decidiríamos?

27 de março de 2006

Terrivelmente iguais são os fatos que cercam as pessoas. Olha lá na rua pra ver. Trânsito, megalomania, gritos e sussurros de quem não tem pra onde ir ou não sabe para onde vai.

Não há caminhos para quem não visualiza estradas. E infinitas são elas.

Não há de se pensar em passados mal construídos aliados a erros cometidos. Incrivelmente melhores são as previsões sobre o futuro, embora deixem obscuros os feitos presentes. Ausentes. Parte de ansiedades que habitam os mais obtusos lugares de quem faz da busca, uma constante.

O choro rasgado não aperta o coração, mas os olhos e a garganta. É nó e é lágrima oscilante nos cílios inferiores.

Há de procurar ciência para explicar a contenção da subjetividade. E não há ciência que abençoe abstrações. A benção vem antes de existir a teoria. A teoria perdeu espaço nas telas de computadores e na necessidade prática e emergencial do tempo agora.

A música pediu o silêncio. Eu silenciei.

20 de março de 2006

Eu nunca, mas já.

Eu nunca desfaço a mala. Porque eu prefiro viajar. Ou talvez porque eu prefira estar em todos os lugares. Não precisa ser ao mesmo tempo. Mas precisa mudar. Sempre.

Eu nunca fecho a janela. Porque eu prefiro deixar o ar entrar. Ou talvez porque eu sofra de claustrofobia e não saiba. Não precisa ventar. Mas o ar precisa circular. Sempre.

Eu nunca varro o chão. Porque eu prefiro sujar. Ou talvez porque eu tema perder alguma coisa. Não precisa me mandar. Mas às vezes eu limpo. Sempre.

Eu nunca ponho o chinelo. Porque eu prefiro andar descalça. Ou talvez porque eu queira sentir a temperatura de onde piso. Não que eu ache meu sapato. Mas eu me calço pra sair. Sempre.

Eu nunca ouço o telefone tocar. Porque eu prefiro encontrar. Ou talvez porque meu telefone esteja com defeito. Não precisa me ligar. Mas lá está o celular a tocar. Sempre.

Eu nunca planejo com antecedência. Porque eu prefiro me atrasar. Ou talvez porque eu realmente não consiga planejar. Não que eu tente. Mas a última hora está lá a me espreitar. Sempre.

Eu nunca me desconheci. Porque eu prefiro descobrir. Ou talvez porque hoje eu não esteja aqui. Não que eu esteja lá. Mas talvez lá seja outro lugar. Sempre.

16 de março de 2006

Eu tenho a impressão de que a cidade fica bem ali. No parapeito da minha janela. Basta subir,debruçar, olhar pra baixo e assim, ver as milhares de luzes de milhares de lugares que ninguém sabe ao certo o que é.

A cidade está cantando. Uma harmonia mal planejada, sinfonia confusa. Dedo e buzina. Mas,afinal, de quem é a esquizofrenia? Do dedo ou da buzina?

A situação do ar está regular. Mas daqui a pouco chove. E nada como a noite de São Paulo depois de umas horas de chuva.

Enquanto isso,o menino de rua se esconde debaixo do viaduto. Mas é empurrado por algumas rampas, feitas de material áspero e pontiagudo. E isso machuca o menino. Melhor ficar com a chuva ou procurar algum ponto de ônibus, mesmo que esteja lotado. É só esperar.
O difícil é não ter itinerário nenhum pra esperar. Ser só pra não se molhar.

E a sinfonia continua, embora o vidro do carro esteja fechado.
A obra continua a crescer, embora ainda não tenha dono.
A chuva continua a cair, mesmo que o frio já esteja aqui.
Mãos continuam estendidas, ainda que estejam vazias. A minha e a sua.

Logo mais, vai passar aqui embaixo da minha janela, uma multidão. Façamos silêncio.

13 de março de 2006

De que adiantaria ficar parado se, mesmo assim, e, apesar de tudo, lá estaria o mundo a girar e movimentar-nos, mesmo sem querer.

E de que adiantaria esperar o mundo girar sem, nem mesmo, mover-se, nem que fosse para descobrir uma nova pessoa.

Cá estamos nós, a tentar desvendar o mistério da civilização, nascida entre lutas de poder e perpetuada as custas de invenções mirabolantes sobre o futuro.

9 de março de 2006

Boca de lixo. De luxo tardio. De tempo vadio . De sol apagado e chuva reinando. De árvore parada com vento estático.
Não há brisa remanescente. Nem temporal de fluxo reluzente.
Itinerante de suas ruas de poetas maltrapilhos.
Vagando atrás de verdades vendidas em potes de supermercado, ou lojas de atacado.
A verdade é vendida no varejo.

No caminho se encontra a pergunta. Não a resposta.
As respostas vem antes das dúvidas.
Dúvida que endivida o indivíduo.
Único.
Amador de situações e situacionismos.
Há que reinventar-se pra tornanr-se colorido.


[texto duro, de palavras sonoras deslocadas e dançantes. entre páginas virtuais]

2 de março de 2006

[Eu não sei dizer nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser tudo o que quiser
Então eu escuto

Fala
Fala
Se eu não entender, não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar na hora de falar
Então eu escuto
Fala]

Cala a boca de palavra falha. Só olha. Folheia meus olhos e leia meu pensamento.
Falta uma palavra que cala , em silencio. Uma palavra que explique e outra que se desculpe.
A palavra que finda a dúvida que tira o sono, desperta do sonho e adormece a alma.
Para uma alma as palavras não fazem diferença ou sentido.
Mas, cá pra mim, eu procuro uma palavra definitiva.

26 de fevereiro de 2006

[eu quero é botar, meu bloco na rua, girar, botar pra gemer. Eu quero é botar, meu bloco na rua gingar, pra dar e vender]

E o bloco passou no meio da rua já cheia de espíritos do Carnaval. Desceu a ladeira e foi parar na boca do

rio. Iara fez festa pro Quem Gosta passar. Cantou, cantou, cantou. Espalhou cores e tambores. Tambores

sempre mandam recados. O bloco deu o seu.

1 de fevereiro de 2006

Madrugada. Silencio. Luzes amarelas e ruas vazias. Ar respirável, todo ele a plenos pulmões.
Consegue ver esse cenário? Misterioso.
De longe, algumas conversas escondidas, baixas, quiçá ilegais.
Esse é o silencio dos que não dormem. O habitat de quem tem a noite como parceira.
Lua, tão cosmograficamente satélite. Objeto de discussão para quem as palavras faltam. E falham.
Sorrisos contaminados embora sinceros.
Poucas luzes (quem dera fossem de lamparinas, quem dera...) em casas onde reina o sono dos que trabalham antes do sol nascer e se despedem do dia quando ele se põe.
Enquanto isso , em algum lugar do mundo, alguém se encontra com seus próprios eus e circuntancias.
Na madrugada....

27 de janeiro de 2006

para novos e desconhecidos amigos

Os conhecidos desconhecidos são muito bem vindos.
Certamente porque eles chegam muito perto e fazem a gente pensar e querer descobrir ou encobrir coisas que, antes, eram silenciosas.
Não são óbvios, são inimagináveis. e possuem cores, umas Amarelas, outros tem olhos negros.
as trocas são ricas e com mais comunhão do que seria normalmente com a pessoa mais próxima e conhecida que imaginamos. por isso, bem vindos!
desvendem-me.

26 de janeiro de 2006

O fato é que eu remoia algumas lembrancas.
Não porque fossem boas ou más, mas porque elas me pertenciam.
Não há bom momento que não vire boa lembranca que, ao consultá-la, faca emergir da face um sutil sorriso.
Assim como não há má lembranca que deixe de espremer violentamente o coracão dentro do peito.
Mas essa não é a questão principal.
A principal questão é que elas me pertencem e, talvez sejam, acredito que o são, só minhas.
Elas me constroem a cada dia. Guiam escolhas e moldam minha maneira de acordar.

23 de janeiro de 2006

Demora pra gente perceber, mas quando descobre, tudo fica maior e mais colorido. Como existe gente interessante nesse planeta ( sim, sim, eu também acho que deve existir criaturas sensacionais fora dele).
Gente das mais variadas formas e gostos. Que gosta de música e de silëncio. De batucada e de guitarra.
Gente que põe flor no cabelo e anda descalca. Que olha pro céu e procura constelacão. Que gosta de rio mas não dispensa o mar.
Gente que pinta o cabelo e gente que nem penteia. Que toma banho mas prefere a água fria da cachoeira.
Gente que acredita em sonhos e gente que não sonha nem dormindo. Que leva vários tombos mas que comemora pequenas vitórias. Que olha e vë e, outros que se fazem de cegos.
Gente que le, não entende mas não desiste. Que desiste mas ainda assim continua vivendo e sendo importante para algumas pessoas.
Todo mundo é importante.
Todo mundo fica triste.
Todo mundo pensa.
Todo mundo ama ao menos uma pessoa.
Alguns não sem importam. Outros fazem do altruísmo sua mais evidente virtude.
Alguns mudam o tempo todo. Outros preferem permancer como são.
Alguns preferem lua e, outros, sol.
Se o gosto se discute? Sim, sempre. Nada melhor que uma conversa polarizada, troca de idéias e, em algum ponto, ambos concordam, sempre.

14 de janeiro de 2006

Tem uma frase, em algum texto no qual a autora afirma que está sempre se procurando e , quando se encontra, descobre que mudou de endereco. Sentir-se assim creio que seja tão absolutamente humano que até incomoda um pouco, porque, sem querer voce se descobre demasiadamente igual até mesmo às pessoas que voce despreza e procura entender porque, no mundo, essas pessoas existem. pode parecer estranho mas não,absolutamente não estou falando de ninguém em particular, embora esse argumento de antecipacão faca crer ao leitor que tudo é exatamente o contrário disso.
E, além do mais tem essas pessoas errantes que o mundo cria para roubar-lhes a existencia e fazer com que elas vivam querendo descobrir caminhos obtusos, escondidos ali, naquele canto, não não, no outro, mas nesse mesmo mundo ladrãozinho. De repente também, aparecem raízes em pés móveis, demais quem sabe, e elas fixam devagarinho, prendem sutilmente, no movimento de quem acaba de despertar.