21 de julho de 2006

Vinho. Cigarro. O agora e o daqui a pouco. O que eu espero e o que me surpreende. Eu sonho acordada. Eu sonho dormindo. Eu sonho o tempo todo. Não há quem resista à incapacidade de sonhar. Espero. Aconteço. Devagar. Sempre. Em frente. Acostumo-me, mas não deveria. Não me acostumo. Quero. Abdico. Tudo o que será. Tudo o que não é. Palavras vazias. Texto completo. Não fiz. Eu quis. Deslumbre. Ceticismo. Falta encantamento pra ver a poesia da rua. Sobra alegria com pouco. Engano e desengano. Acredito e acredito. Duvido, mas é por pouco tempo. Eu encho a página de palavras. Eu entendo. Eu questiono. Eu tenho de me acostumar. Não sei viver sem algumas coisas. Outras preferia não ter. Eu não choro mais quando ouço aquela música. E nem sorrio mais quando leio aquele poema. Ônibus todos os dias no mesmo horário. Caminhadas pela mesma rua. Elaboro teses. Descontruo teses. Leio. É pouco. É tudo tão pouco!

14 de julho de 2006

"sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 2006"

Estou aqui fazendo as malas. Colocando todas as roupas que julgo importante e que estão espalhadas pelo chão do quarto. De repente me dou conta da bagunça que está o meu quarto. Não só o quarto. A casa toda. É o meu próprio retrato. Jornais espalhados pelo chão e empilhados por sobre um banco. Os livros que eu não consigo parar de comprar. Os discos que ganhei e que até agora não coloquei no aparelho de som para ouvi-los. Posso estar perdendo uma grande descoberta musical. Mas é que agora eu prefiro ouvir aquelas canções que eu já decorei e que estão gastas. Também é o meu retrato. Medo de descobrir o novo, mas ansiosa por ele. Só que ainda não coloquei no aparelho de som. Sempre gostei de ficar sozinha. Só assim é possível descobrir. Hão de perguntar se há algo a ser descoberto. Sim, claro que sim. Tudo está a ser descoberto.
Fico aqui pensando se não há algumas coisas que eu deva mudar. Tipo colocar os livros na estante e separar os discos que eu ainda não ouvi. Mas gosto deles assim. Espalhados, esperando que um dia eu olhe para eles e diga que chegou a hora. Todas as coisas que eu não vivi e todas as coisas que eu já vivi. E que hoje são sorrisos. E lágrimas. Mas que foram coisas em si. Existiram. Mas agora eu preciso terminar de arrumar as malas.


em tempos de guerra eu é que não quero ficar calada.

19 de junho de 2006

RUAS

Há quem diga que as ruas têm coração de pedra, mas ali, por entre elas, era a minha vida que eu via passar pelos meus olhos. Cada uma em que adentrava me contava minha história, respirando por entre as frestas dos paralelepípedos sufocados pelo asfalto. Não foi pedra que eu vi por ali. Passeando pela cidade que há muito sentia falta. Foi vida.

Eu consegui ver minha infância nas ruas que circundam as praças. Pude me ver menina, fazendo descobertas, deitando no chão e olhando as copas das árvores e as flores que prendiam nos meus cabelos longos. Mesmo escuras, lembrei da luz que o sol trazia e aquecia minhas tardes à beira do rio. Entrei por entre ruas e ouvi o som da voz dos meus amigos inventando brincadeiras. Revivi minhas incertezas enquanto descobria meus amores. Foi nos seus cantos escuros que eu me escondi. Foi por entre elas que meu caminho começou.

Hoje sinto que as deixei pra trás. Assim como quem passa e abandona um pedaço de si nos corredores vazios de luzes amarelas. Deixei para trás o que me serve para construir os caminhos que hoje traço. Em busca de outras ruas me senti sozinha. Procurando um futuro prestes a iniciar-se.

Naquelas ruas eu vi tudo o que sou e entendi. O tempo não me castigou, apesar de ter me roubado as ruas em troca de outras. O tempo me deu o que chamamos de lembranças. E eu me presenteei com todas as minhas conquistas. Com todos os meus sorrisos e lágrimas. Todos os medos, incertezas. Todas as músicas e poesias que aquelas ruas me deram quando procurei por elas.

Não há de ser pedra o que a rua me contou.

5 de junho de 2006

A Louca de Higienópolis – Parte 2 – A pensão da Barão de Tatuí.

Uma boa história nunca acaba. Ao menos para quem fareja fatos novos ainda desconhecidos.
Por um caminho nunca dantes percorrido, o bairro a princípio é Higienópolis. Saindo das ruas que na maioria das vezes tem nomes de estados brasileiros, entro no famoso Bela Vista. Centro de São Paulo. Ando por ruas cheias de prédios soberbos que depois contrastariam com o lugar que procurava.

Esclarecimento à população: Seu Salvador e suas inquilinas não são doidos! Pra dizêr qué, eu, márcia não morava lá, eu um quarto e cosinha sósinha. Até: morei. Muitos anos, lá. Morei 15 anos e 7 meses na pênsão dele desde 1984 até 1998. agosto.

O combustível da curiosidade foi a dúvida de quem descobre um lugar mas questiona sua existência. Com um endereço nas mãos, chego ao pé da rua que começa em outra, Jaguaribe. Desço atenta à numeração. O garbo é deixado para trás. Chego enfim ao endereço riscado no papel. Rua Barão de Tatuí, 493. A primeira reação foi o espanto. Causado pela verdade de um lugar que existia, até então, somente em folhas de papel manchadas de tinta de caneta. Uma pensão marrom, silenciosa. O lugar possui três portas. Uma por onde entram as inquilinas, outra comercial ou algo que lembra uma garagem e a terceira que parece dar acesso à casa dos donos. Na primeira porta de entrada uma placa: Aluga-se vagas para moças. Diminuo a marcha, exatamente à frente do número 493. Do meu lado, uma janela de onde se é possível ouvir uma música lenta, que não identifico. Ambientada por uma meia luz suspensa no teto. As paredes têm cor de tijolo cru.

São Paulo 27 de maio 2006. Aqui sou eu. Márcia da pensão de seu Salvador. Barão de Tatuí 493. Estou morando na rua desde 09 de agosto de 1998. Quando puseram energia atômica pra me matar na Barão de Tatuí 493. Julho Agosto 1998.

Sem saber ao certo o que fazer, entro num bar. Penso em perguntar algo sobre a misteriosa pensão, mas desisto. Todos estão muito ocupados assistindo ao futebol na televisão. Então volto. Passo na frente do lugar novamente. Dessa vez há uma senhora na porta, que acaba de chegar de seu trabalho. Sorri para mim. Ela tem nome de santa e me deixa à vontade. Pergunto a ela se conhece a Márcia, aquela que escreve e prende seus textos no muro da Avenida Higienópolis. A senhora responde como quem tem pena. Conhece e conta que a escritora foi “enxotada” da pensão. Relata que o dono, cujo nome aparece frequentemente nos textos, não perdoa sequer um aluguel atrasado. Conta também que ouviu falar que Márcia usava drogas. A senhora mora ali há quatro anos e meio e não é contemporânea da “louca”. Descubro que no natal do ano passado a poetisa deixa uma carta na caixinha de correio. Amaldiçoa os moradores e promete vingança.
No caminho de volta, me deparo com uma árvore circundada por mais textos de Márcia. Tiro da árvore e vou embora, cheia de possíveis histórias na cabeça. Agora, depois do contato com a pensão, ainda mais pulsantes.

26 de maio de 2006

Sobre como olhar o caleidoscópio.

“Eu não tenho medo, eu não tenho tempo, eu não sei voar”.
[Zeca Baleiro]


Às vezes a gente pensa que não se conhece e isso se torna uma máxima. Tanto é verdade que, diante de uma pergunta sobre o que há de mais verdadeiro em nós, um branco imediato toma conta do pensamento. Faça o teste. Eu não me conheço mesmo. Eu acho. Eu mudo. Eu anulo. Eu construo. Eu gosto.
Alguém poderia me fazer o favor de passar a fórmula da organização juntamente com a cartilha que ensina como se constroem objetivos fixos? Os meus não me bastam. Tenho a impressão que minhas vontades andam espalhadas pelas ruas me procurando e, quando passo por elas, assim como quem passa ao lado de um poste, elas se fixam em mim, viram minha vida do avesso e constituem-se como os novos planos pra vida inteira da última semana. Acho que viver é olhar pelo caleidoscópio cuja abertura nunca nos vai mostrar as mesmas figuras que desde as mais complexas e belas até as mais simples, nunca se repetem. Assim é o cotidiano da inconstância humana, cronometrada por minutos imutáveis e intransponíveis. Não temos muitas chances de arrependimento, mas temos a expectativa de futuros “bem aventurados”, de novas cores e formas. Embora isso seja pouco. Eu quero é olhar através do meu caleidoscópio para ter a certeza de que as figuras não se repetirão de verdade. Eu duvido. Eu pergunto. Eu acredito. Eu abandono.

“Precário, provisório, perecível; Falível, transitório, transitivo; Efêmero, fullgás e passageiro; Eis aqui um vivo”.
[Lenine]


Eu amo as pessoas por um tempo, apesar de intenso, dura pouco. Não me limito a uma quantidade de amores - todos eles de todos os tipos e sabores - adquiridos. Quero centenas deles por metro quadrado. Só assim é possível surpreender-me.
Não sei como funciona o lema de “pessoas pra vida inteira”, pode soar com frieza, mas a importância das pessoas que fazem parte do que a gente é, é também mais relevante no momento agora do que décadas adiante. Sentimentos mudam, não anulam, mas modificam-se como as pedrinhas coloridas do caleidoscópio. É só girar. Eu giro. Eu mexo. Eu congelo a cena do filme. Mesmo que seja por pouco tempo.

4 de maio de 2006

Na Argentina.


A viagem surgiu de uma pequena idéia entre amigos, aliada a projetos acadêmicos que testaram meus conhecimentos de formas bastante distintas.

Em primeiro lugar a lingua e a velocidade com que é falada se mostrou um pequeno obstáculo e, pensando bem, apesar da barreira perfeitamente transponível, me senti culpada de conhecer mais o inglês que o idioma falado em toda a América Latina, meu território.

Depois veio a comida portenha. A europeização é exposta claramente assim que se olha para um prato de refeição. Batatas, batatas e mais batatas. E, pelas ruas largas da capital argentina, cafés, cafés e mais cafés.Embora o café tenha me parecido um bem de luxo, caro como ingerir ouro verde ou negro.

Estranhamentos primeiros a parte, é só olhar pra cima e ver o céu. Sim, sim, temos um céu muitíssimo belo mas o céu de lá era de um azul infindo e homogêneo. Penso comigo que há de ser realmente claro o céu de uma cidade intitulada Buenos Aires.

Há um forte apego ao passado no país de heróis como Perón, Evita, Che Guevara e outros tantos paladinos anôminos que um livro seria pouco para listar. E a luta não cessa, nunca.

Noção de espaço. As vezes, em São Paulo, não dou um passo sem perguntar para ter certeza dos caminhos que me levam ao destino traçado. Em Buenos Aires não fiz diferente. Mas, a priori, assustei-me com a tamanha precisão pela qual um senhor me explicou como se chegava a uma rua X. Número exatíssimo de quadras e caminhos infalíveis de transportes coletivos.

Também é bonito pensar que lá, as pessoas esperam muito mais gentileza e ganham muito mais dela do que os brasileiros, conhecidos como hospitaleiros.

Praças, muitas delas, onde habitam populações inteiras de pombas alimentadas da doação de pais que levam as crianças para passear e dar milho a esses animais.

E havia um carrosel. Que ficava mais bonito quanto mais escura a noite fosse. Com suas pequenas luzes coloridas espalhadas ao seu redor. Funciona agora na minha memória como uma caixinha de música cuja melodia eu escolho e posso segurá-la nas mãos.

18 de abril de 2006

Precisamos criar o hábito de parar.

Pare agora. Por um minuto deite a cabeça no travesseiro. Essa é uma boa técnica de des-organização. Necessária para a posteridade.

Pare depois. Desde que o tempo voe. Pare quando você menos precisar.

Pare para parar de pirar. Pare para parar o parado. Pare para parar o pé.

Pare para descansar.

9 de abril de 2006

A louca de Higienópolis.

por Priscila Basile


A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.” – Manoel de Barros
Loucura – falta de discernimento; irreflexão; absurdo, insensatez, doidice, louquice.
- Do Aurélio.

Essa poderia ser uma história de uma menina trazida do Rio Grande do Norte, da pequena cidade de Canguaretama. Aos sete anos foi levada com o incentivo dos pais ao Rio de Janeiro. Aos 15, foi trazida de lá para a capital paulista. Mas poderia ser, não se sabe se é.

Seu Paulo eu não sou maluca nem sensitiva. Nada de paranormal. O senhor com sua família me trouxe sim. Do Rio de Janeiro quando eu tinha 15 anos todos éraram. Meu pai errou mandando me buscar de Canguaretama cóntra minha vontade. Vocês eraram me trazendo do Rio para São Paulo. Por que? Não se rouba gente. Nem nada.

Grita-se nos muros da Avenida Higienópolis, localizada no suntuoso bairro homônimo, palavras de uma tal Márcia ou Tereza que, todas as manhãs faz da escrita sua cachaça. Estende-se nos portões de um clube luxuoso dezenas de folhas repletas de poesia. Há quem conteste seu lirismo, há quem não acredite nele. Talvez por não entendermos ou por procurarmos lucidez em tudo que nos cerca, torcemos o nariz para os delírios reais dessa personagem urbana.
A primeira descrição física da chamada louca de Higienópolis poderia ser esta – uma mulher loira que faz suas próprias roupas – mas talvez isso lhe fosse insuficiente. Existe algo de lúdico na construção de suas formas. Olhos cansados, às vezes assustadores, em meio aos fios loiros de cabelo. Ela abusa das fitas, de tecidos brilhosos e de um rádio que vive pendurado em seu pescoço emanando Bethovem, Mozart ou Strauss. Poder-se-ia pensar em uma boneca espalhafatosa andando pelas ruas. Não. A organização dos elementos é de uma simplicidade quase doída. Uma Macabéa paulistana cuja hora de estrela são seus textos afixados sistematicamente com galhos nas grades do tal clube.

Esclarecimento à população: eu márcia aqui : morando na rua saia verde camiseta verde blusa rosa loura.

A descrição subjetiva é impossível de se delinear. Embora se comunique pelo olhar, pela fala às vezes rude, seus manuscritos comporiam o que de mais importante ronda a história de vida dessa mulher. Embora com a pontuação complicada, algumas palavras mal alocadas, há uma consciência de mundo que cerca as obras. Nomes de instituições, governantes, mesmo usados de forma hostil, saltam do papel a todo instante.


tá pensando que eu sou sensitiva de gáris josé serra? Vigaristas da prefeitura pé de chinêlos. tá pensando que eu sou doida prefeito de são paulo? Irão de arrepender eu juro! Sou vingativa pagarão. Odeio.

Outro fator curioso, agora quase mágico são nomes de seus possíveis amores, familiares, anfitriões e personagens desconhecidos. A curiosidade maior é de quem a lê e pára para averiguar na internet a verdade detrás dos títulos. Se a teoria de que só se existe se estiver na rede, encoraja desbravadores. Digita-se um nome em sites de busca e lá está ele. Homem, aprovado com a maior nota em um concurso para a vaga de carcereiro em São Paulo. A descoberta acaba por aqui. Outro nome, mulher, empresária que promoveria um leilão de jóias em Sergipe. Através dela se chega à outra pessoa de mesmo sobrenome. Nascida em 56, sem curso superior, é babá, artesã e mora no Jardim Paulista. Um número de telefone aparece na tela. Os curiosos perseguem as pistas como quem ronda ou descobre grandes fatos acerca de uma suposta grande história. Durante a ligação e do outro lado da linha identificada pelo endereço, uma voz feminina balbucia e afirma não haver ninguém com o nome exposto no currículo. Balde de água fria. O melhor seria não procurar lógica em algo que existe por si só.

Jamais colocaria um palito na minha boca jamais tirei comida dos meus dentes com á línguá, não sou porca. Usava nos meus dentes fio dental. Nunca pús minha línguá na minha bochécha nunca usei dentadura nunca tive tic, nervoso na boca.

Todas as manhãs, perseguimos os textos deixados pela escritora que faz da rua, sua mídia. Provavelmente o faremos até que existam por lá. Há dias em que somem, penso se não há mais algum fã, além de mim e dos que já conheço. Encantados por uma história que poderia ser a da vida de alguém, caçamos densidade em algo leve e impalpável. A existência. Ela que desconstrói seres humanos, seus caminhos e trata de impor lógica aos mais sensíveis.

2 de abril de 2006

Projetos distintos não devem ser pesados na mesma balança.

Há que separar-se desejo e responsabilidade. Cada um em sua metade da balança. Embora talvez devêssemos pesá-los em balanças distintas.

O desejo e a responsabilidade devem ser separados, etiquetados, catalogados e depois, guardados em distintos compartimentos de armários ou arquivos a que sirva vistoriá-los em dias quaisquer.

O relógio deve então parar de correr. Há de se ter escolhas que priorizem o prazer. Pode ser que alguém pense: o desejo virá sempre antes da responsabilidade.

Nem sempre.

Há que prefira a responsabilidade ao desejo, ou, há quem tenha desejo pela responsabilidade.

Geralmente o ser humano, esse objeto duplo, repleto de significações e sentidos possui balanceadamente as duas opções. O que deve ser evitado, no entanto, é o atropelamento de um pelo outro.

Mas, o tempo existe. Involuntariamente somos pautados pelo andar alvoroçado dos relógios e suas conseqüências. Escravos? Quem sabe. O que se tem certeza é que realmente não podemos escolher a que horas vem um e a que horas começa o outro.

Há de se optar pelas escolhas, novamente. Escolher alternativas pré-estabelecidas por normas que a gente mesmo se impõe. E se não as houvesse, o que decidiríamos?

27 de março de 2006

Terrivelmente iguais são os fatos que cercam as pessoas. Olha lá na rua pra ver. Trânsito, megalomania, gritos e sussurros de quem não tem pra onde ir ou não sabe para onde vai.

Não há caminhos para quem não visualiza estradas. E infinitas são elas.

Não há de se pensar em passados mal construídos aliados a erros cometidos. Incrivelmente melhores são as previsões sobre o futuro, embora deixem obscuros os feitos presentes. Ausentes. Parte de ansiedades que habitam os mais obtusos lugares de quem faz da busca, uma constante.

O choro rasgado não aperta o coração, mas os olhos e a garganta. É nó e é lágrima oscilante nos cílios inferiores.

Há de procurar ciência para explicar a contenção da subjetividade. E não há ciência que abençoe abstrações. A benção vem antes de existir a teoria. A teoria perdeu espaço nas telas de computadores e na necessidade prática e emergencial do tempo agora.

A música pediu o silêncio. Eu silenciei.

20 de março de 2006

Eu nunca, mas já.

Eu nunca desfaço a mala. Porque eu prefiro viajar. Ou talvez porque eu prefira estar em todos os lugares. Não precisa ser ao mesmo tempo. Mas precisa mudar. Sempre.

Eu nunca fecho a janela. Porque eu prefiro deixar o ar entrar. Ou talvez porque eu sofra de claustrofobia e não saiba. Não precisa ventar. Mas o ar precisa circular. Sempre.

Eu nunca varro o chão. Porque eu prefiro sujar. Ou talvez porque eu tema perder alguma coisa. Não precisa me mandar. Mas às vezes eu limpo. Sempre.

Eu nunca ponho o chinelo. Porque eu prefiro andar descalça. Ou talvez porque eu queira sentir a temperatura de onde piso. Não que eu ache meu sapato. Mas eu me calço pra sair. Sempre.

Eu nunca ouço o telefone tocar. Porque eu prefiro encontrar. Ou talvez porque meu telefone esteja com defeito. Não precisa me ligar. Mas lá está o celular a tocar. Sempre.

Eu nunca planejo com antecedência. Porque eu prefiro me atrasar. Ou talvez porque eu realmente não consiga planejar. Não que eu tente. Mas a última hora está lá a me espreitar. Sempre.

Eu nunca me desconheci. Porque eu prefiro descobrir. Ou talvez porque hoje eu não esteja aqui. Não que eu esteja lá. Mas talvez lá seja outro lugar. Sempre.

16 de março de 2006

Eu tenho a impressão de que a cidade fica bem ali. No parapeito da minha janela. Basta subir,debruçar, olhar pra baixo e assim, ver as milhares de luzes de milhares de lugares que ninguém sabe ao certo o que é.

A cidade está cantando. Uma harmonia mal planejada, sinfonia confusa. Dedo e buzina. Mas,afinal, de quem é a esquizofrenia? Do dedo ou da buzina?

A situação do ar está regular. Mas daqui a pouco chove. E nada como a noite de São Paulo depois de umas horas de chuva.

Enquanto isso,o menino de rua se esconde debaixo do viaduto. Mas é empurrado por algumas rampas, feitas de material áspero e pontiagudo. E isso machuca o menino. Melhor ficar com a chuva ou procurar algum ponto de ônibus, mesmo que esteja lotado. É só esperar.
O difícil é não ter itinerário nenhum pra esperar. Ser só pra não se molhar.

E a sinfonia continua, embora o vidro do carro esteja fechado.
A obra continua a crescer, embora ainda não tenha dono.
A chuva continua a cair, mesmo que o frio já esteja aqui.
Mãos continuam estendidas, ainda que estejam vazias. A minha e a sua.

Logo mais, vai passar aqui embaixo da minha janela, uma multidão. Façamos silêncio.

13 de março de 2006

De que adiantaria ficar parado se, mesmo assim, e, apesar de tudo, lá estaria o mundo a girar e movimentar-nos, mesmo sem querer.

E de que adiantaria esperar o mundo girar sem, nem mesmo, mover-se, nem que fosse para descobrir uma nova pessoa.

Cá estamos nós, a tentar desvendar o mistério da civilização, nascida entre lutas de poder e perpetuada as custas de invenções mirabolantes sobre o futuro.

9 de março de 2006

Boca de lixo. De luxo tardio. De tempo vadio . De sol apagado e chuva reinando. De árvore parada com vento estático.
Não há brisa remanescente. Nem temporal de fluxo reluzente.
Itinerante de suas ruas de poetas maltrapilhos.
Vagando atrás de verdades vendidas em potes de supermercado, ou lojas de atacado.
A verdade é vendida no varejo.

No caminho se encontra a pergunta. Não a resposta.
As respostas vem antes das dúvidas.
Dúvida que endivida o indivíduo.
Único.
Amador de situações e situacionismos.
Há que reinventar-se pra tornanr-se colorido.


[texto duro, de palavras sonoras deslocadas e dançantes. entre páginas virtuais]

2 de março de 2006

[Eu não sei dizer nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser tudo o que quiser
Então eu escuto

Fala
Fala
Se eu não entender, não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar na hora de falar
Então eu escuto
Fala]

Cala a boca de palavra falha. Só olha. Folheia meus olhos e leia meu pensamento.
Falta uma palavra que cala , em silencio. Uma palavra que explique e outra que se desculpe.
A palavra que finda a dúvida que tira o sono, desperta do sonho e adormece a alma.
Para uma alma as palavras não fazem diferença ou sentido.
Mas, cá pra mim, eu procuro uma palavra definitiva.

26 de fevereiro de 2006

[eu quero é botar, meu bloco na rua, girar, botar pra gemer. Eu quero é botar, meu bloco na rua gingar, pra dar e vender]

E o bloco passou no meio da rua já cheia de espíritos do Carnaval. Desceu a ladeira e foi parar na boca do

rio. Iara fez festa pro Quem Gosta passar. Cantou, cantou, cantou. Espalhou cores e tambores. Tambores

sempre mandam recados. O bloco deu o seu.

1 de fevereiro de 2006

Madrugada. Silencio. Luzes amarelas e ruas vazias. Ar respirável, todo ele a plenos pulmões.
Consegue ver esse cenário? Misterioso.
De longe, algumas conversas escondidas, baixas, quiçá ilegais.
Esse é o silencio dos que não dormem. O habitat de quem tem a noite como parceira.
Lua, tão cosmograficamente satélite. Objeto de discussão para quem as palavras faltam. E falham.
Sorrisos contaminados embora sinceros.
Poucas luzes (quem dera fossem de lamparinas, quem dera...) em casas onde reina o sono dos que trabalham antes do sol nascer e se despedem do dia quando ele se põe.
Enquanto isso , em algum lugar do mundo, alguém se encontra com seus próprios eus e circuntancias.
Na madrugada....

27 de janeiro de 2006

para novos e desconhecidos amigos

Os conhecidos desconhecidos são muito bem vindos.
Certamente porque eles chegam muito perto e fazem a gente pensar e querer descobrir ou encobrir coisas que, antes, eram silenciosas.
Não são óbvios, são inimagináveis. e possuem cores, umas Amarelas, outros tem olhos negros.
as trocas são ricas e com mais comunhão do que seria normalmente com a pessoa mais próxima e conhecida que imaginamos. por isso, bem vindos!
desvendem-me.

26 de janeiro de 2006

O fato é que eu remoia algumas lembrancas.
Não porque fossem boas ou más, mas porque elas me pertenciam.
Não há bom momento que não vire boa lembranca que, ao consultá-la, faca emergir da face um sutil sorriso.
Assim como não há má lembranca que deixe de espremer violentamente o coracão dentro do peito.
Mas essa não é a questão principal.
A principal questão é que elas me pertencem e, talvez sejam, acredito que o são, só minhas.
Elas me constroem a cada dia. Guiam escolhas e moldam minha maneira de acordar.

23 de janeiro de 2006

Demora pra gente perceber, mas quando descobre, tudo fica maior e mais colorido. Como existe gente interessante nesse planeta ( sim, sim, eu também acho que deve existir criaturas sensacionais fora dele).
Gente das mais variadas formas e gostos. Que gosta de música e de silëncio. De batucada e de guitarra.
Gente que põe flor no cabelo e anda descalca. Que olha pro céu e procura constelacão. Que gosta de rio mas não dispensa o mar.
Gente que pinta o cabelo e gente que nem penteia. Que toma banho mas prefere a água fria da cachoeira.
Gente que acredita em sonhos e gente que não sonha nem dormindo. Que leva vários tombos mas que comemora pequenas vitórias. Que olha e vë e, outros que se fazem de cegos.
Gente que le, não entende mas não desiste. Que desiste mas ainda assim continua vivendo e sendo importante para algumas pessoas.
Todo mundo é importante.
Todo mundo fica triste.
Todo mundo pensa.
Todo mundo ama ao menos uma pessoa.
Alguns não sem importam. Outros fazem do altruísmo sua mais evidente virtude.
Alguns mudam o tempo todo. Outros preferem permancer como são.
Alguns preferem lua e, outros, sol.
Se o gosto se discute? Sim, sempre. Nada melhor que uma conversa polarizada, troca de idéias e, em algum ponto, ambos concordam, sempre.