12 de junho de 2008

Cinema Paradiso


Partir sempre é como habitar lugar nenhum.

Olhar para trás é como ver fantasmas, e sempre em frente é como não ter saudades, ou apagar lembranças.


A vida às vezes segue sozinha, sem capitão para o timão do navio, só embalo das ondas e ventos dos continentes.


Ser sempre dos lugares é pertencer ao mundo e às suas estradas tortuosas.


Envelhecer é descobrir os destinos para onde nos levam os caminhos.

Sentir cada circuntância é viver.


As pessoas fazem parte das trilhas pelas quais passamos. Conhecê-las é pertencer aos lugares e abandoná-los em breve.


É necessário partir e voltar.


Mesmo que a aparência mude, o ar traz o cheiro de tempos diversos.


Não lembrar é abandonar os detalhes de pessoa em seu tempo presente.

Ser pessoa implica perder-se pelos caminhos mal traçados, encontrar o despreparo da falta de planos e das saudades espalhadas e latentes.
[ps. a foto não está em CC's]

7 de junho de 2008

Não vim para ver a vida
P
A
S
S
A
R

Mas sou
P
A
S
S
A
G
E
I
R
A

Vim para ficar
E ver tudo
M
U
D
A
R

21 de maio de 2008

Dias e noites de Montevidéu

Montevidéu

Uma estrela, uma estrela
nenhuma constelação
nenhum disco voador
nem dor aqui
e quando olho lá embaixo
vejo velhos
vejo carros
vejo coisas
a estrela, as luzes, o céu daqui

É um tanto saudade de lá
no entanto eu não quero partir
lá no canto uma estrela
eu adoro existir!

texto de Paulo Vigu. Poeta e compositor pirajuense. De primeira!


[porque os dias e noites têm tido as cores de Montevidéu, que não conheço, mas imagino como seja]

25 de abril de 2008

Cena

Não mude a cena do filme cujo final você não escreveu. É irresponsável e arrogante. Mas crie e invente novos finais, para personagens alcançáveis e insaciáveis por uma nova história.

18 de fevereiro de 2008

do que eu sei

Não me peçam para endurecer.

a leveza é o que me convém.

21 de janeiro de 2008

Não gosto de nada que tire o brilho dos olhos dos meus amigos. Nada que aconteça a eles passa por mim sem deixar uma réstia de dor.

Não são tempos fáceis. São tempos em que os ventos trazem notícias ruins, as aflições engrandecem.

No mundo do futuro, o mais difícil é saber para onde ir. Não há samba nem cachaça para servir de anestesia.

A cidade de pedra maltrata. A cidade de rio é longe e deixou de proteger.

Meus amigos têm a cara e a alma limpa. Sonham. Criam como se vida a isso se resumisse. E sonham sempre.

A esperança de dias melhores nos espreita, embora às vezes tão a espreita que parece não estar em lugar nenhum.

De longe se vê que os tempos hão de mudar e eles se esforçam para tudo correr bem.

Sem motivos aparentes, a tristeza corre sorrateiramente por seus rostos. Eu quase posso ver.

E eu, só consigo lançar palavras frágeis, construídas em prosa e verso.

20 de janeiro de 2008

João Passarinheiro - terceira parte

Depois desse acontecimento, o pai isolou-se numa busca eterna pela mulher. Mal falava com o filho e deixou de preparar-lhe a marmita de arroz, feijão e bife, que costumava trocar pelo peixe abundante no riacho que corria perto da casa. Desde então, Passarinheiro deu para tomar muito café que ele mesmo torrava e servia ao pai nos fins de tarde, quando chegava de sua incursão diária pela mata verde e cerrada. Fumava cigarro de fumo de corda que trocava no armazém de Seu Joaquim por um punhado de café fresco servido todas as tardes pelo comerciante. Era magro e esguio, andava descalço sempre, por maior que fosse a caminhada.


[Aviso aos navegantes: para entender esse texto, creio que seja preciso ler as outras duas partes, perdidas, embora facilmente encontráveis, em cantos desse blog. Era só e tudo isso]

8 de janeiro de 2008

me dê notícias de você

É minha fuga.
Meu delírio.
Meu silêncio e meu suspiro.

Tudo está lá fora.
.
.
.
Quieto.
.
.
.
À espreita de um descuido meu.

Esse descuido que nunca vem.
É um medo que me assiste.
Sem trégua.

26 de dezembro de 2007

Gosto mais dos casos que Chico cantou e das histórias que Garcia Márquez escreveu.
Hoje tatuei minha vida em mim.
Outra metade dela, tatuei nas encostas do rio.
Uma história que não é minha.
Mas criei e sou a protagonista não revelada.
O sujeito do não-acontecer.
Reinventei-me para poder viver.

Faltou-me o verbo.
A canção.
O tato.
Até a lembrança.

E silêncio e sozinha.
Dona de uma história que só acontece aqui, cá bem dentro daqui.
Agora já não é mais nada.
Apenas certezas vãs. E o nada.
Tudo passou diante dos meus olhos e dos meus gestos.
Eu nada pude fazer.
E agora tudo está em seu devido lugar.
Cá dentro de mim o mundo revirou-se.

Eu calei.
Silenciei.


Neguei-me a mão que passeava.
Nada fiz.
Nada.

27 de novembro de 2007

Fragmento de uma madrugada.

Isso acontece com os livros.

São sentimentos de páginas abertas.

14 de novembro de 2007

É que quando eu vejo as pessoas na rua, se escondendo nos bares para fugir da chuva, penso até em querer ficar.

28 de outubro de 2007

Do Engradado


Hoje é dia de samba em Piraju também.

Domingo povoa as ruas de batuques.

eu aqui.

eu ali.

eu lá

Vai Vai

Pela janela de casa um samba de longe invade todo o lugar.

É uma pena que eu não possa ir para lá sambar.

6 de outubro de 2007

sobre música e sem qualquer pretensão

Hoje, depois de uma semana repleta de dias difíceis, de descobertas e oscilações de humor, assisti, logo que acordei, a um DVD de Chico e Tom. Há bem poucos dias atrás, estava enfadada da voz do Chico, como relatei em outro texto. No entanto, hoje, enquanto as imagens circulavam pela tela, reafirmei meu gosto pela música, dele e de tantos outros músicos maravilhosos que existem nesse país.

Sem querer pensar muito sobre o assunto, várias vezes já cheguei à conclusão de que a música é a forma mais sublime de arte. Ela, mais rapidamente que todas as outras artes, atinge nosso ponto (de noção quem sabe) estético, emocional etc e tal. Esfria a medula, e hoje, aqueceu e umedeceu meus olhos.

Gosto muito de música, não há grande surpresa nisso, difícil quem não goste, por isso é tão sublime, simples maneira de fazer arte. Bem, pelo menos de senti-la.

Gosto quando predomina o silêncio musical, daquele silêncio espontâneo que existe quando amigos meus fazem música. Serenidade, sem mais delongas sobre o que essa palavra possa significar.

1 de outubro de 2007

Desabafo da preguiça


(Uma pausinha no Passarinheiro só porque eu quis. Essa é que é a verdade)


Todo dia, mesmo que ele seja sempre um novo dia, dá um pouco de preguiça.


De abrir o jornal diário e encontrar sempre o mesmo tipo de notícia.


De abrir o olho quando acorda e saber que o mesmo problema ainda precisa ser resolvido.


De saber que a rima do poema às vezes é ruim e que às vezes também não tem sentimento algum.


De saber que o sol queima e algumas vezes arde, outras, que ele deixa uma cor bonita na pele.


De acender o primeiro e mais prazeroso cigarro, aquele depois do café da manhã, e saber que ele vai te adoentar daqui a algum tempo.


Também dá um pouco de preguiça da voz do Chico, mas essa informação eu mantenho em segredo.

29 de setembro de 2007

João Passariheiro - outra parte

A capela ocre estava cheia de pequenas flores amarelas e brancas no contorno dos bancos e em arranjos dispostos pelo altar pequeno de alvenaria ainda não rebocado. Para a solução deste problema, Delfina sacou de um baú adormecido no quarto de sua falecida mãe, uma toalha branca com bicos de renda. Era essa mesma toalha que a mãe usava para cobrir a velha mesa de madeira de sua infância durante os almoços dominicais.

Delfina era muito parecida com a mãe, tinha os cabelos longos e negros até as costas, lisos como um tecido fino de seda. Quase todos os dias usava vestidos floridos e chinelos de finas tiras de couro. Passava horas frente ao espelho escovando os cabelos. Nessas horas sonhava com seu casamento com um fazendeiro rico, que tivesse casa e carro e que apareceria de repente, trazendo-lhe flores e trajando terno xadrez de tons pastéis. Quando encontrou João Passarinheiro e inevitavelmente se apaixonou, também aprendeu a lamentar frente ao espelho a triste sorte de se apaixonar por um sujeito magricela sem carro e sem casa, que trabalhava na colheita de café nos sítios e fazendas da região, se aboletando em qualquer canto escuro para dormir e, muitas vezes, dependendo da generosidade de seus patrões. Levava uma barraca de lona nas costas e andava feito um caramujo com a casa nos passos.


Passarinheiro perdeu a casa de seus pais quando fez dezessete anos, logo após a morte de seu pai, que padecera louco depois do sumiço repentino de sua mulher, vítima de uma febre de cuidados banais que alimentava uma busca cega pela limpeza e pelo bem-estar da família. Belo dia, tomou o rumo da estrada em busca de sabe-se-lá o que e perdeu-se na escuridão e, por mais que João e seu pai procurassem, a mãe perdia-se cada vez mais pelo matagal, até ser absorvida por ele.

24 de setembro de 2007

João Passarinheiro e o que virá por aí.

Estes textos que lerão em breve são fragmentos da vida de João Passarinheiro. Inventei outro dia que ele existia e agora, cá pra mim, ele já tem uma vida toda dele, embora seja ela toda minha. Muitas coisas eu vou mudar, outras vou corrigir, mas a intenção é publicar assim, CRU.

Vou escrever devagar e postar quando der vontade. Ainda não tem fim, nem meio, mas já é um começo. Pra escrever João Passarinheiro vou precisar de Piraju e das conversas e estórias de lá. É assim mesmo.

Também estou disposta a aceitar sugestões, se alguém quiser contribuir com o futuro do personagem. Não garanto que ele rume para algum lado, mas vou gostar de saber que ele pode ter outras chances. É isso, e por enquanto, é só isso.



João Passarinheiro se encontrou com Delfina, que achava muito bonito chegar atrasada em festas. Considerava uma displicência elegante, digna daquelas pessoas que pouco se importam com tudo e todos. Em sua imaginação de futura estrela, aquele desdém simbolizava o mérito somente conferido as grandes estrelas que, de tão reconhecidas seja lá por que coisa, não deviam satisfação a mais ninguém. Naquele dia, era ela a grande estrela. A capela estava arrumada conforme seu gosto. Cada detalhe foi pensado e sonhado desde que decidiram se casar. A capela ficava em uma pequena estrada de terra que ligava nada a lugar nenhum. Escolheram a pequena igreja porque fora lá que Passarinheiro nasceu. Sua mãe teve um parto difícil, apesar de uma gravidez tranqüila.

Na ocasião, havia um panfletinho de Nossa Senhora Desatadora dos Nós no bolso de seu pai, que ficou rezando de olhos cerrados para que o filho nascesse bem, ainda que parido ali, no meio de uma estrada por onde só se passava gente a pé, nenhum carro, carroça ou carro de boi.


Com o sucesso do parto e diante da criança saudável que nascia, decidiram erguer ali a capela em homenagem a santa. João Passarinheiro, mesmo pensando em toda a dificuldade de realizar ali o casamento, não hesitou na hora de escolher o lugar. Delfina a princípio não gostou da idéia, mas depois leu em uma revista no dentista que uma atriz famosa escolhera, mês passado, um lugar parecido. A atriz falava de um casamento rupestre, simples que só, afirmando assim a possível existência de uma felicidade maior do que aquela cheia de pompa e circunstância com a qual sonham a maioria das noivas.

(Continua no próximo post e vai continuando sempre)

23 de agosto de 2007

A China inventou tudo!

Em uma de minhas várias noites insones, escolhi a televisão como companheira. Andando por canais e por programas que passam na madrugada, me deparo com a TV Escola apresentando um daqueles programas educativos (que por sinal gosto muito, mesmo até daqueles feitos para crianças) sobre a China. E gente, acreditem, a China inventou tudo.

Minha primeira surpresa, já há alguns anos atrás, com as invenções mirabolantes do país, foi a invenção do macarrão. Eu conservava comigo a certeza de que esse alimento era algo genuinamente italiano. Depois pensei que talvez essa fosse uma daquelas coisas como os ingleses inventaram o futebol, mas foi o Brasil quem tornou o esporte popular e quem melhor desenvolveu a técnica. Mas meus amigos, pasmem, a China inventou o futebol. Há registros de dois mil anos atrás de chineses brincando com uma bola, tal como é no futebol, esse esporte que sempre nos foi apresentado como uma invenção de Charles Miller. Pois é, Miller que nada, foi o Marco Pólo, que pelo visto não era bobo nem nada, quem passou uns tempinhos na China, só de olho nas invenções dos caras e quem, também, levou tudo para a Europa, que acabou ficando conhecida como a grande inventora das coisas necessárias para a humanidade.

E por falar em inventores e suas conseqüentes idéias geniais, até Leonardo Da Vinci acabou caindo um pouco no meu conceito, depois de uma outra descoberta não menos surpreendente que fiz ali, diante da tela da TV Escola. Quando a exposição sobre o gênio veio para São Paulo, eu fiquei convencida de que ele tinha inventado as coisas mais importantes dos últimos tempos, mas não, ele inclusive tomou como sua, uma invenção genuinamente chinesa que eu conheci na minha infância, quando passei por Barra Bonita, no interior de São Paulo, a eclusa. A eclusa serve para que os barcos que navegam em rios serem transportados quando acontece um desnível, que o barco não conseguiria ultrapassar se não fosse a maravilhosa eclusa. Então, essa era uma invenção atribuída a Leonardo, no entanto, foi também a China e seus chineses que criaram o mecanismo. Isso porque os caras fizeram um canal navegável, há muito tempo atrás, que passa por boa parte do país. Para gente ter noção da dimensão, é um canal que possui uma extensão como se saísse de Porto Alegre, e chegasse até Cuiabá. Impressionante! Os caras cavaram aquilo, milhares de chineses passaram um bom tempo dedicando-se a esse processo infindável de abrir canal pelos estados e cidades e aldeias. Tudo isso pro comércio fluir melhor.

A China inventou a pipa e, depois disso, o flanador, usado como inspiração para os modelos posteriores de aeronaves. Santos Dummont já era!

Na agronomia então nem se fale. Os chineses eram expert’s. Inventaram o arado, a bomba d’agua para a irrigação, os restaurantes etc. A TV me conta, inclusive, que, a partir de então, o imperador começou a fazer encomendas de refeições para esses lugares, inventando assim, o primeiro serviço de buffet. Olha que coisa! Acho que não é a toa que hoje é uma economia potencial. Eles devem estar inventando cada vez mais coisas.

2 de agosto de 2007

Eu preciso de dinheiro.

___________________De rumo.

___________________De ar fresco.

___________________De luz do dia.

Eu preciso voltar.

______________Ir.

______________Estar.

______________Ficar.

Eu preciso de palavra e verbo.

_________________________De silêncio.

_________________________De batucada.

Eu preciso calar.

_____________E falar.

27 de julho de 2007

Ponha sua saia mais bonita.

Nós vamos sair para tocar o ar.

Se chover, respiramos água. Se ventar, a gente deixa o cabelo bagunçar.

Vamos descalços. Deixa o chão tocar.

Não importa se grama ou pedra, tem mais importância pisar.


Abra suas mãos.

Deixa o mundo passar entre os dedos.

Não há nada que não se possa apalpar.

Feche os olhos e ande às cegas.

Confie no embalo do som das coisas.

Depois abra e conte quantas cores existem a cada quarteirão.


Há mais vida no imprevisto que na razão.