Ela chegou ao pequeno salão e acomodou sua bolsa na cadeira vazia ao lado. Abriu a garrafa d’água por hábito, não por sede. Cruzou as pernas e esperou a meia hora que faltava para o início da palestra checando os números do celular.
Ele entrou de maneira desajeitada e se sentou frente ao público escasso, espalhado pelos assentos. Dispensou o microfone e sentindo-se mais confortável pela ausência de uma grande platéia, tirou a camisa para fora da calça e passou a mão rapidamente pelos cabelos. Respirou pesadamente. Olhou para ela sem saber que a via.
Ele fica mais bonito quando está desarrumado, pensou. É uma bagunça não alinhada. Um descomprometimento com a harmonia das vestimentas. A camisa agora amassada e levemente curta que, vagarosamente, seguindo o movimento dos braços, abria frestas para partes do corpo alvo, não esguio, mas ereto e timidamente desenvolto. Levantou e começou a falar, andando de um lado para o outro. Ela ia descrevendo e revelando seu comportamento, que não conhecia, mas a sua imaginação flutuava. Os dedos alongados demonstravam austeridade. Os óculos de aros finos transpareciam sabedoria e a paciência com a mediocridade era um silêncio ante a ignorância da pretensão. Os gestos mornos, pequenos círculos e demonstrações, não apagavam a luz dos olhos sutilmente claros, de pálpebras baixas. O pescoço alongado sustenta uma face de pêlos claros, barba e cabelo rente à cabeça.
Ele sequer imagina o que a moça escondida na platéia começa a desenhar e o pudor a impede de dizer que deseja esse homem calmo. Se envergonha de estar no meio daquelas pessoas, de perceber que ele é o centro das atenções, já que está num palco modesto. Em silêncio, ela continuava procurando palavras que o revelassem sem desmascará-lo. Ficou enrubescida por essa ação desigual – Ela se misturava meio ao público enquanto ele figurava abaixo da luz. Queria chamá-lo de outro nome, mas esqueceu até seu original. Além disso, a falta de intimidade a impedia de inventar-lhe um apelido ou abreviação silábica.
Que músicas ouviria de olhos fechados e quais motivos o levariam às lágrimas? Não haveria outro meio de conhecê-lo, nem de admirar aquele sorriso lateral, a cabeça baixa e intimidada. O desconforto de um palco sem altura. Sentiu-se pouco atraente, ocultando sua sensualidade dançante, ressaltando o olhar hoje mais entristecido, que era coisa da própria vida. Sua roupa amolecida e floral o enganava e ela se furtou a encarar um olhar incerto, por receio de transparecer sua fraqueza. Os nomes que ele falava passeavam por sua retina, mas nenhum era arquivado em sua memória. Longínqua e distraída.
Ela se levantou antes do fim e sem olhar para trás. Ele acompanhou seu trajeto até a porta que dava para o saguão. Distraiu-se por um segundo de seu discurso e gaguejou. Com a porta já fechada, ele olhou para as mãos e lamentou a ausência dela, retomando as palavras dirigidas a ninguém.
9 de outubro de 2008
29 de julho de 2008
Meu avô
Alguém me segue pela casa durante todo o dia. Falta tema para seguir com uma conversa, por mais que ele demonstre vontade de começar alguma. Decido preparar uma garrafa de café. Em vários lugares do mundo, a bebida pode ser motivo de grandes encontros e papos. Seria meu ponto de partida para rever memórias espalhadas pelo tempo e espaço da mente do meu avô.
Café na mesa, algumas bolachas.
- Sente-se meu avô.
- Cafezinho é sempre bom – diz ele, que passados longos anos de sanidade seguidos por decadente perda de memória, o substantivo avô não lhe causa estranhamento
Hesito para verificar se ele começa o assunto. Silêncio.
- E a Vovó Marina, vô? Sente saudades?
- Hum, Marina foi uma namorada minha, bonita que só!
- E seus filhos?
Silêncio. Ele muda de assunto.
- Sabe, existem as coisas. Vou falar para o meu pai, quando ele morrer, dividir entre mim e os meus irmãos. Aí eu pego essas coisas e dou para minha filha cuidar de mim.
Ele chora. Meu bisavô morreu há muito tempo atrás, antes mesmo de minha mãe nascer, seus irmãos não lhe foram companheiros durante toda a vida. Alguns morreram, outros sumiram por diversas cidades. Moravam em uma cidade chamada Santa Cruz, distrito há muito extinto de Ribeirão Preto.
- Onde estou?
- Em Piraju vô. Na casa de sua filha.
- Quem é minha filha?
Aponto para minha mãe.
- Não, essa é Aninha, minha irmã, que não me deixa ir para canto algum.
- Hum.
- Eu me sinto sozinho sabe? Lembro de uma imensidão de coisas e, de repente, tudo fica escuro, vazio, como se eu caísse em um buraco negro.
Percebi que, na verdade, ele se sente muito sozinho, não reconhece as pessoas e tem espasmos de memória que lhe trazem sentimentos muito distantes.
Certa altura do dia, ele pede dinheiro para ir ao bar. Algumas vezes não se pode dar, atrapalha o efeito dos remédios. Não há muito o que fazer, negar a cerveja diária é o mesmo que tirar sua única lembrança dos dias. Não é justo.
Olho em seus olhos, bem fundo, e não consigo resgatar uma lembrança sequer. Nada. É como se por trás da pupila, de dentro da retina, não existisse mais nada, a não ser um emaranhado de idéias confusas, sem cronologia correta, tudo espalhado dentro de um quarto que necessita de arrumação.
Café na mesa, algumas bolachas.
- Sente-se meu avô.
- Cafezinho é sempre bom – diz ele, que passados longos anos de sanidade seguidos por decadente perda de memória, o substantivo avô não lhe causa estranhamento
Hesito para verificar se ele começa o assunto. Silêncio.
- E a Vovó Marina, vô? Sente saudades?
- Hum, Marina foi uma namorada minha, bonita que só!
- E seus filhos?
Silêncio. Ele muda de assunto.
- Sabe, existem as coisas. Vou falar para o meu pai, quando ele morrer, dividir entre mim e os meus irmãos. Aí eu pego essas coisas e dou para minha filha cuidar de mim.
Ele chora. Meu bisavô morreu há muito tempo atrás, antes mesmo de minha mãe nascer, seus irmãos não lhe foram companheiros durante toda a vida. Alguns morreram, outros sumiram por diversas cidades. Moravam em uma cidade chamada Santa Cruz, distrito há muito extinto de Ribeirão Preto.
- Onde estou?
- Em Piraju vô. Na casa de sua filha.
- Quem é minha filha?
Aponto para minha mãe.
- Não, essa é Aninha, minha irmã, que não me deixa ir para canto algum.
- Hum.
- Eu me sinto sozinho sabe? Lembro de uma imensidão de coisas e, de repente, tudo fica escuro, vazio, como se eu caísse em um buraco negro.
Percebi que, na verdade, ele se sente muito sozinho, não reconhece as pessoas e tem espasmos de memória que lhe trazem sentimentos muito distantes.
Certa altura do dia, ele pede dinheiro para ir ao bar. Algumas vezes não se pode dar, atrapalha o efeito dos remédios. Não há muito o que fazer, negar a cerveja diária é o mesmo que tirar sua única lembrança dos dias. Não é justo.
Olho em seus olhos, bem fundo, e não consigo resgatar uma lembrança sequer. Nada. É como se por trás da pupila, de dentro da retina, não existisse mais nada, a não ser um emaranhado de idéias confusas, sem cronologia correta, tudo espalhado dentro de um quarto que necessita de arrumação.
6 de julho de 2008
12 de junho de 2008
Cinema Paradiso

Partir sempre é como habitar lugar nenhum.
Olhar para trás é como ver fantasmas, e sempre em frente é como não ter saudades, ou apagar lembranças.
A vida às vezes segue sozinha, sem capitão para o timão do navio, só embalo das ondas e ventos dos continentes.
Ser sempre dos lugares é pertencer ao mundo e às suas estradas tortuosas.
Envelhecer é descobrir os destinos para onde nos levam os caminhos.
Sentir cada circuntância é viver.
As pessoas fazem parte das trilhas pelas quais passamos. Conhecê-las é pertencer aos lugares e abandoná-los em breve.
É necessário partir e voltar.
Mesmo que a aparência mude, o ar traz o cheiro de tempos diversos.
Não lembrar é abandonar os detalhes de pessoa em seu tempo presente.
Ser pessoa implica perder-se pelos caminhos mal traçados, encontrar o despreparo da falta de planos e das saudades espalhadas e latentes.
[ps. a foto não está em CC's]
21 de maio de 2008
Dias e noites de Montevidéu
Montevidéu
Uma estrela, uma estrela
nenhuma constelação
nenhum disco voador
nem dor aqui
e quando olho lá embaixo
vejo velhos
vejo carros
vejo coisas
a estrela, as luzes, o céu daqui
É um tanto saudade de lá
no entanto eu não quero partir
lá no canto uma estrela
eu adoro existir!
texto de Paulo Vigu. Poeta e compositor pirajuense. De primeira!
[porque os dias e noites têm tido as cores de Montevidéu, que não conheço, mas imagino como seja]
Uma estrela, uma estrela
nenhuma constelação
nenhum disco voador
nem dor aqui
e quando olho lá embaixo
vejo velhos
vejo carros
vejo coisas
a estrela, as luzes, o céu daqui
É um tanto saudade de lá
no entanto eu não quero partir
lá no canto uma estrela
eu adoro existir!
texto de Paulo Vigu. Poeta e compositor pirajuense. De primeira!
[porque os dias e noites têm tido as cores de Montevidéu, que não conheço, mas imagino como seja]
25 de abril de 2008
Cena
Não mude a cena do filme cujo final você não escreveu. É irresponsável e arrogante. Mas crie e invente novos finais, para personagens alcançáveis e insaciáveis por uma nova história.
18 de fevereiro de 2008
21 de janeiro de 2008
Não gosto de nada que tire o brilho dos olhos dos meus amigos. Nada que aconteça a eles passa por mim sem deixar uma réstia de dor.
Não são tempos fáceis. São tempos em que os ventos trazem notícias ruins, as aflições engrandecem.
No mundo do futuro, o mais difícil é saber para onde ir. Não há samba nem cachaça para servir de anestesia.
A cidade de pedra maltrata. A cidade de rio é longe e deixou de proteger.
Meus amigos têm a cara e a alma limpa. Sonham. Criam como se vida a isso se resumisse. E sonham sempre.
A esperança de dias melhores nos espreita, embora às vezes tão a espreita que parece não estar em lugar nenhum.
De longe se vê que os tempos hão de mudar e eles se esforçam para tudo correr bem.
Sem motivos aparentes, a tristeza corre sorrateiramente por seus rostos. Eu quase posso ver.
E eu, só consigo lançar palavras frágeis, construídas em prosa e verso.
Não são tempos fáceis. São tempos em que os ventos trazem notícias ruins, as aflições engrandecem.
No mundo do futuro, o mais difícil é saber para onde ir. Não há samba nem cachaça para servir de anestesia.
A cidade de pedra maltrata. A cidade de rio é longe e deixou de proteger.
Meus amigos têm a cara e a alma limpa. Sonham. Criam como se vida a isso se resumisse. E sonham sempre.
A esperança de dias melhores nos espreita, embora às vezes tão a espreita que parece não estar em lugar nenhum.
De longe se vê que os tempos hão de mudar e eles se esforçam para tudo correr bem.
Sem motivos aparentes, a tristeza corre sorrateiramente por seus rostos. Eu quase posso ver.
E eu, só consigo lançar palavras frágeis, construídas em prosa e verso.
20 de janeiro de 2008
João Passarinheiro - terceira parte
Depois desse acontecimento, o pai isolou-se numa busca eterna pela mulher. Mal falava com o filho e deixou de preparar-lhe a marmita de arroz, feijão e bife, que costumava trocar pelo peixe abundante no riacho que corria perto da casa. Desde então, Passarinheiro deu para tomar muito café que ele mesmo torrava e servia ao pai nos fins de tarde, quando chegava de sua incursão diária pela mata verde e cerrada. Fumava cigarro de fumo de corda que trocava no armazém de Seu Joaquim por um punhado de café fresco servido todas as tardes pelo comerciante. Era magro e esguio, andava descalço sempre, por maior que fosse a caminhada.
[Aviso aos navegantes: para entender esse texto, creio que seja preciso ler as outras duas partes, perdidas, embora facilmente encontráveis, em cantos desse blog. Era só e tudo isso]
[Aviso aos navegantes: para entender esse texto, creio que seja preciso ler as outras duas partes, perdidas, embora facilmente encontráveis, em cantos desse blog. Era só e tudo isso]
8 de janeiro de 2008
me dê notícias de você
É minha fuga.
Meu delírio.
Meu silêncio e meu suspiro.
Tudo está lá fora.
.
.
.
Quieto.
.
.
.
À espreita de um descuido meu.
Esse descuido que nunca vem.
É um medo que me assiste.
Sem trégua.
Meu delírio.
Meu silêncio e meu suspiro.
Tudo está lá fora.
.
.
.
Quieto.
.
.
.
À espreita de um descuido meu.
Esse descuido que nunca vem.
É um medo que me assiste.
Sem trégua.
26 de dezembro de 2007
Gosto mais dos casos que Chico cantou e das histórias que Garcia Márquez escreveu.
Hoje tatuei minha vida em mim.
Outra metade dela, tatuei nas encostas do rio.
Uma história que não é minha.
Mas criei e sou a protagonista não revelada.
O sujeito do não-acontecer.
Reinventei-me para poder viver.
Faltou-me o verbo.
A canção.
O tato.
Até a lembrança.
E silêncio e sozinha.
Dona de uma história que só acontece aqui, cá bem dentro daqui.
Agora já não é mais nada.
Apenas certezas vãs. E o nada.
Tudo passou diante dos meus olhos e dos meus gestos.
Eu nada pude fazer.
E agora tudo está em seu devido lugar.
Cá dentro de mim o mundo revirou-se.
Eu calei.
Silenciei.
Neguei-me a mão que passeava.
Nada fiz.
Nada.
Hoje tatuei minha vida em mim.
Outra metade dela, tatuei nas encostas do rio.
Uma história que não é minha.
Mas criei e sou a protagonista não revelada.
O sujeito do não-acontecer.
Reinventei-me para poder viver.
Faltou-me o verbo.
A canção.
O tato.
Até a lembrança.
E silêncio e sozinha.
Dona de uma história que só acontece aqui, cá bem dentro daqui.
Agora já não é mais nada.
Apenas certezas vãs. E o nada.
Tudo passou diante dos meus olhos e dos meus gestos.
Eu nada pude fazer.
E agora tudo está em seu devido lugar.
Cá dentro de mim o mundo revirou-se.
Eu calei.
Silenciei.
Neguei-me a mão que passeava.
Nada fiz.
Nada.
27 de novembro de 2007
14 de novembro de 2007
28 de outubro de 2007
Vai Vai
Pela janela de casa um samba de longe invade todo o lugar.
É uma pena que eu não possa ir para lá sambar.
É uma pena que eu não possa ir para lá sambar.
6 de outubro de 2007
sobre música e sem qualquer pretensão
Hoje, depois de uma semana repleta de dias difíceis, de descobertas e oscilações de humor, assisti, logo que acordei, a um DVD de Chico e Tom. Há bem poucos dias atrás, estava enfadada da voz do Chico, como relatei em outro texto. No entanto, hoje, enquanto as imagens circulavam pela tela, reafirmei meu gosto pela música, dele e de tantos outros músicos maravilhosos que existem nesse país.
Sem querer pensar muito sobre o assunto, várias vezes já cheguei à conclusão de que a música é a forma mais sublime de arte. Ela, mais rapidamente que todas as outras artes, atinge nosso ponto (de noção quem sabe) estético, emocional etc e tal. Esfria a medula, e hoje, aqueceu e umedeceu meus olhos.
Gosto muito de música, não há grande surpresa nisso, difícil quem não goste, por isso é tão sublime, simples maneira de fazer arte. Bem, pelo menos de senti-la.
Gosto quando predomina o silêncio musical, daquele silêncio espontâneo que existe quando amigos meus fazem música. Serenidade, sem mais delongas sobre o que essa palavra possa significar.
Sem querer pensar muito sobre o assunto, várias vezes já cheguei à conclusão de que a música é a forma mais sublime de arte. Ela, mais rapidamente que todas as outras artes, atinge nosso ponto (de noção quem sabe) estético, emocional etc e tal. Esfria a medula, e hoje, aqueceu e umedeceu meus olhos.
Gosto muito de música, não há grande surpresa nisso, difícil quem não goste, por isso é tão sublime, simples maneira de fazer arte. Bem, pelo menos de senti-la.
Gosto quando predomina o silêncio musical, daquele silêncio espontâneo que existe quando amigos meus fazem música. Serenidade, sem mais delongas sobre o que essa palavra possa significar.
1 de outubro de 2007
Desabafo da preguiça
(Uma pausinha no Passarinheiro só porque eu quis. Essa é que é a verdade)
Todo dia, mesmo que ele seja sempre um novo dia, dá um pouco de preguiça.
De abrir o jornal diário e encontrar sempre o mesmo tipo de notícia.
De abrir o olho quando acorda e saber que o mesmo problema ainda precisa ser resolvido.
De saber que a rima do poema às vezes é ruim e que às vezes também não tem sentimento algum.
De saber que o sol queima e algumas vezes arde, outras, que ele deixa uma cor bonita na pele.
De acender o primeiro e mais prazeroso cigarro, aquele depois do café da manhã, e saber que ele vai te adoentar daqui a algum tempo.
Também dá um pouco de preguiça da voz do Chico, mas essa informação eu mantenho em segredo.
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