23 de agosto de 2010

Cuba



(Trilha sonora para a leitura aqui ou aqui)

E então como é que a gente abrevia o que viveu? Como é que a gente conta uma história sobre um lugar com a pretensão de que nossos queridos possam viver tudo aquilo através dos nossos olhos?

As fotografias não são suficientes e acompanhadas de um relato fiel talvez ficassem congeladas no tempo e espaço dos dias quentes, do ritmo abundante guardado nos tímpanos, dos pés que se perderam nas ruas de um lugar que jamais poderíamos antever, da falta de sal da comida criolla e do sabor temperado das gargalhadas inesperadas.

E se eu tentasse definir o quanto eu mudei, creio que teria mais a dizer sobre aqueles onze dias que sobre meu último ano de vida, explicado com clareza naqueles minutos solitários frente aos questionamentos do mar.

Viver não se explica. Mesmo. Tudo é muito mais fruto de saltar no desconhecido e esperar que o mundo seja gentil como uma mãe ao nos embalar.


16 de junho de 2010

Quarta-feira às 3h da tarde.

Nesse exato momento um velhinho de chapéu experimenta o sabor novo de um sorvete. Um grupo de cegos toma cerveja no bar dos garçons gentis. Um taxista cede a passagem para um casal de namorados. A moça da banca sorri sem entender o motivo. O sol invade o chão da loja de chocolates. Dois irmãos se encantam por um país distante. O farol abre. Fecha. O mundo continua vagarosamente.

Eu vagueio.

19 de abril de 2010

O Leite


Espanto-me ao não encontrar no outro
a doçura que falta na minha voz;
a simetria de rosto que me é ausente;
a graça das gentilezas que eu não faço;
os sorrisos que distribuo com parcimônia;
um outro que não mora em mim,
nem em ninguém.
Na verdade, eu não encontro desencontros.
Quiçá ausências, corpos que eu nunca tive.
Não pertenço a lugar algum,
porque sequer pertenço a mim mesma.
Era só um jeito de sorrir que eu tinha
e que perdi.


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Escrito em parceria com Fernanda Vicentini num dia sem sobriedade.

26 de fevereiro de 2010

São Paulo jazz


É fato que vai chover e eu terei vontade de caminhar longas horas sob as ruas molhadas da Avenida Paulista. A cada quarteirão morre e nasce uma dúvida, verte-se uma lágrima seguida de um sorriso, troca-se Janis Joplin por John Coltrane.

Eu terei mil idéias, afastarei uma centena de pensamentos e mudarei de opinião quantas vezes for possível no caminho que me leva do Paraíso ao final da Consolação. Todas as luzes incidentes distorcerão cada visão e hão de orientar cada olhar longínquo.

Talvez, ao passar pelo MASP, eu tenha uma epifania e sorria (gargalhe!) bem alto, para espanto dos concentrados transeuntes. Talvez eu cante em voz alta e de olhos cerrados durante o espaço de um quarteirão.

E eu sou só um recorte de mil pedaços. Uma fotografia velha que se reconstitui.
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OBS: A fotografia não está em CC.

12 de janeiro de 2010

Surpresa vespertina

Isso me chegou no meio de uma tarde nublada. Delicadezas, meus caros, delicadezas.

Insônia
p/ Priscila Basile

uma chaga
que se fecha
a cada minuto

uma clave de sol
chave para
você entender

as pálpebras que ardem

& o alfabeto
que dia e noite
suspira na sua carne


(R. Saffuan)
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Obrigada, meu querido.

21 de dezembro de 2009

Delicadeza

Um vagalume me atravessou.

E ele era bem mais bonito que todas as luzes de natal da Av. Paulista.

30 de novembro de 2009

Segunda nota sobre pequenos fracassos

Eu vi um silêncio que me chamou.

Conheço silêncios assim, sem nome, que engolem.

É um silêncio que sempre me convida a entrar em sua imensidão.

O silêncio me revela.

27 de novembro de 2009

Nota sobre pequenos fracassos

[Desconhecer o motivo das lágrimas é uma maneira delicada de enlouquecer]

26 de novembro de 2009

Oh! Darling


Oh! darling, please believe me
I'll never do you no harm
Believe me when I tell you
I'll never do you no harm


Oh! Darling, if you leave me
I'll never make it alone
Believe me when I tell you, ooo
Don't ever leave me alone


When you told me
You didn't need me anymore
Well you know I nearly broke down and cried
When you told me you didn't need me anymore
Well you know I nearly broke down and died


Oh! Darling if you leave me
I'll never make it alone
Believe me when I tell you
I'll never do you no harm
(Believe me darling)


When you told me
You didn't need me anymore
Well you know I nearly broke down and cried
When you told me you didn't need me anymore
Well you know I nearly broke down and died


Oh! Darling, please believe me
I'll never let you down
Oh, believe me darling
Believe me when I tell you, ooo
I'll never do you no harm
.
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[Observações importantes: 1) diferentemente do restante do blog - disponível em CC - a foto e a música estão protegidas pelas leis do Copyright. É só um lembrete. 2) a letra é do Paul, mas eu gosto tão mais do casal John e Yoko que optei por eles para ilustrar essa maravilha. É isso!]

28 de setembro de 2009

Insônia

É quase como olhar o mundo através de uma janela banhada pela chuva. Turvo e melancólico.

É ser obrigada a conviver consigo durante longas horas e participar de uma discussão que não chega a conclusão alguma.

17 de agosto de 2009

pílula

Lembro que naquela tarde o suspiro foi doloroso, embora fizesse sol após longos meses de chuva.

13 de julho de 2009

Se eu pudesse explicar, diria que não durmo há dias, que não sonho há meses, que eu não saio mais de casa.

Diria que intencionei trocar meus amigos, ainda que a ausência deles viesse a me doer como uma cólica constante nos rins.

Diria que escrever se tornou um sufoco, que ler se tornou um tormento e que a música me ensurdece.

Se eu pudesse explicar, diria que o vinho há muito virou vinagre e que eu continuo sorvendo o líquido, agora ácido, sem sequer me dar conta.

3 de junho de 2009

eu silencio

O silêncio, minha querida, às vezes é vontade de não existir e também pode ser um louvor à vida. O silêncio é descanso, mas pode ser inquietação. O silêncio é a fala desistida de ser proferida, mas também é nossa surpresa diante da beleza da prosa e da poesia. O silêncio é o choro contido enquanto o peito rasga e grita de dor. O SILÊNCIO É COVARDIA E É CORAGEM. O silêncio é respeito e petulância. O silêncio revela o conforto da intimidade. O silêncio revela o fim. O silêncio aponta a direção certa, mas dissimula as outras opções. O silêncio agride e, ainda assim, é a melhor forma de afirmação.

29 de maio de 2009

pensamento

E de repente ela se calou. Manoel de Barros diria que entrou em estado de árvore. Eu não entendo de árvores, mas compreendo os silêncios.

27 de maio de 2009

Pedaços de carnaval

Despediram-se. Era findo o carnaval. As fantasias continuavam pelo chão e os pedacinhos de confete se perdiam sobre a cama. Aquelas coisas todas prenunciavam o cheiro da quarta-feira de cinzas silenciosa. Não havia muito o quê dizer, eles sabiam que o amor iniciado na sexta-feira, acabaria, inevitavelmente, na noite da terça.

Naqueles dias, muita coisa foi dita, sem nenhuma delas ser previamente questionada. A certeza do anonimato e do fim anunciado permitiu-lhes trocar confidências. Trataram-se como se trata a própria consciência, aquela que tem a exclusividade dos pensamentos mais sombrios, dos medos enjaulados e das vontades impublicáveis.

Encontraram-se na rua, em meio aos blocos coloridos de pierrots e colombinas fantasiados. Ao se olharem de cara nua, meio deslocados na bagunça dos tambores e dos tamborins, se aproximaram encabulados. Sem dizer palavra alguma, rumaram para fora da folia e sentaram na sarjeta para fumar um cigarro.

- Eu tenho medo de deixar o gás ligado e um belo dia chegar em casa e não ter mais casa nenhuma. Eu às vezes penso em fugir de todas as pessoas que eu conheço, embora eu as ame sem medidas, só para ter de inventar uma vida nova e não me reconhecer mais na minha. Eu tenho vontade de fazer amor com um desconhecido numa noite de carnaval sem sequer saber seu nome.

- Eu tenho medo de encontrar uma desconhecida no carnaval e desejar fazer amor com ela, sem sequer saber seu nome. Eu tenho vontade de deixar o gás ligado em casa, só para um dia chegar lá e não ter mais casa nenhuma. Eu penso em conhecer e amar pessoas para abandoná-las depois.

25 de março de 2009

Há tantos cataventos na varanda que penso que o ar correndo entre as pás sente cócegas.

O morador do apartamento dos cataventos gosta de saber como o vento que passa se comporta.

Ele sai de sua toca quando o catavento explica que o vento está propício a bater em seu roso.

13 de janeiro de 2009

Eu me encontro nos contrários. Nas coisas que se negam e evitam se completar. Eu me encontro na coisa torta, no sentimento confuso, na arte de não saber. Eu me encontro no desaprendizado, na palavra densa e na expressão vazia.

Encontro-me na rua escura e esfumaçada, nos ambientes silenciosos. Encontro-me com pessoas de olhar ausente.
No suspiro.
No desapego.
Na inconstância das opiniões certeiras.

Não tenho planos.

Vejo muito mais coisas do que gostaria. É que essa mania de não parar de olhar me conduz para observações inconvenientes. Me coloca na alma dos outros e me transforma em poucos de tudo, em dores de todos, em alegrias gerais.

10 de dezembro de 2008

Carta crua

Não me ame. Eu só vou até ali. Depois disso fica confuso. Eu não sei como conduzir, a estrada fica escura e eu paro o carro. Você pode até pensar que é exagero, mas te digo: eu não alcanço. Meu caminho chega ali e pára, olha pra minha cara e pergunta pra onde eu vou. Respondo que eu não sei. Que na verdade eu nunca soube, que sempre meio deixei levar, que ia conforme o vento. Se via que estava errada, colocava o sapato e voltava, sem medo de perder. Aquele medo típico de quem não sabe onde está. Depois disso fui seguindo, arriscando aqui e ali, nada que me trouxesse pra perto, mas também que não me conduzisse pra longe. Andei no limiar das ruas que não tem saída, depois procurei outras que me levassem para cruzamentos certeiros. Esperei. Não havia o que fazer.

Enquanto isso te deixei aqui, não dei satisfação sequer. Achei que não deveria. Fui conduzindo como achava que era. Sem encontrar nem perder caminhos. E o fato é que não me perdi, mas estive muito mais distante de me encontrar. Negando o que achava que devia, me perdi em contradições, tive vontade de voltar, mas não obedeci. Fugi para outros cantos e procurei novas pessoas. Aterrorizei-me. Fiquei no escuro e em silêncio para que eu não desistisse de ser encontrada, embora isso não estivesse nos meus planos, depois deixei de precisar. Pensei em muita coisa, até em me matar, veja só, mas nem esse era o caminho que eu perseguia, nem resolveria meu problema e saciaria minhas questões. Deixei as coisas para mais tarde, e quanto mais tarde ficava, mais essas coisas acabavam me perseguindo. Eu virei refém.

18 de novembro de 2008

Hoje eu não tô pra conversa, não tô pra verdade , não tô nem aí.
Hoje o dia fechou, o trabalho rendeu, e eu nem tô aqui.
Hoje não tem cama que cure, bebida que dure e café que segure.

Hoje o silêncio é pouco, o grito é rouco e a paciência esgotou.
Hoje perdi a poesia, perdi a fantasia e cancelei o carnaval.

Mas só hoje.


É que amanhã a gente bota a roupa, segura no corrimão, repensa a escola de samba , embala a composição, tira a viola do saco e toca a vida na flauta. Ou não.

9 de outubro de 2008

Desencontro

Ela chegou ao pequeno salão e acomodou sua bolsa na cadeira vazia ao lado. Abriu a garrafa d’água por hábito, não por sede. Cruzou as pernas e esperou a meia hora que faltava para o início da palestra checando os números do celular.

Ele entrou de maneira desajeitada e se sentou frente ao público escasso, espalhado pelos assentos. Dispensou o microfone e sentindo-se mais confortável pela ausência de uma grande platéia, tirou a camisa para fora da calça e passou a mão rapidamente pelos cabelos. Respirou pesadamente. Olhou para ela sem saber que a via.

Ele fica mais bonito quando está desarrumado, pensou. É uma bagunça não alinhada. Um descomprometimento com a harmonia das vestimentas. A camisa agora amassada e levemente curta que, vagarosamente, seguindo o movimento dos braços, abria frestas para partes do corpo alvo, não esguio, mas ereto e timidamente desenvolto. Levantou e começou a falar, andando de um lado para o outro. Ela ia descrevendo e revelando seu comportamento, que não conhecia, mas a sua imaginação flutuava. Os dedos alongados demonstravam austeridade. Os óculos de aros finos transpareciam sabedoria e a paciência com a mediocridade era um silêncio ante a ignorância da pretensão. Os gestos mornos, pequenos círculos e demonstrações, não apagavam a luz dos olhos sutilmente claros, de pálpebras baixas. O pescoço alongado sustenta uma face de pêlos claros, barba e cabelo rente à cabeça.

Ele sequer imagina o que a moça escondida na platéia começa a desenhar e o pudor a impede de dizer que deseja esse homem calmo. Se envergonha de estar no meio daquelas pessoas, de perceber que ele é o centro das atenções, já que está num palco modesto. Em silêncio, ela continuava procurando palavras que o revelassem sem desmascará-lo. Ficou enrubescida por essa ação desigual – Ela se misturava meio ao público enquanto ele figurava abaixo da luz. Queria chamá-lo de outro nome, mas esqueceu até seu original. Além disso, a falta de intimidade a impedia de inventar-lhe um apelido ou abreviação silábica.

Que músicas ouviria de olhos fechados e quais motivos o levariam às lágrimas? Não haveria outro meio de conhecê-lo, nem de admirar aquele sorriso lateral, a cabeça baixa e intimidada. O desconforto de um palco sem altura. Sentiu-se pouco atraente, ocultando sua sensualidade dançante, ressaltando o olhar hoje mais entristecido, que era coisa da própria vida. Sua roupa amolecida e floral o enganava e ela se furtou a encarar um olhar incerto, por receio de transparecer sua fraqueza. Os nomes que ele falava passeavam por sua retina, mas nenhum era arquivado em sua memória. Longínqua e distraída.

Ela se levantou antes do fim e sem olhar para trás. Ele acompanhou seu trajeto até a porta que dava para o saguão. Distraiu-se por um segundo de seu discurso e gaguejou. Com a porta já fechada, ele olhou para as mãos e lamentou a ausência dela, retomando as palavras dirigidas a ninguém.