4 de setembro de 2008

Não tenho medo. Tenho silêncios.



[são tempos de frases curtas]

3 de setembro de 2008

As pessoas são mais bonitas quando estão desarrumadas.

29 de julho de 2008

Meu avô

Alguém me segue pela casa durante todo o dia. Falta tema para seguir com uma conversa, por mais que ele demonstre vontade de começar alguma. Decido preparar uma garrafa de café. Em vários lugares do mundo, a bebida pode ser motivo de grandes encontros e papos. Seria meu ponto de partida para rever memórias espalhadas pelo tempo e espaço da mente do meu avô.

Café na mesa, algumas bolachas.
- Sente-se meu avô.
- Cafezinho é sempre bom – diz ele, que passados longos anos de sanidade seguidos por decadente perda de memória, o substantivo avô não lhe causa estranhamento
Hesito para verificar se ele começa o assunto. Silêncio.
- E a Vovó Marina, vô? Sente saudades?
- Hum, Marina foi uma namorada minha, bonita que só!
- E seus filhos?
Silêncio. Ele muda de assunto.
- Sabe, existem as coisas. Vou falar para o meu pai, quando ele morrer, dividir entre mim e os meus irmãos. Aí eu pego essas coisas e dou para minha filha cuidar de mim.

Ele chora. Meu bisavô morreu há muito tempo atrás, antes mesmo de minha mãe nascer, seus irmãos não lhe foram companheiros durante toda a vida. Alguns morreram, outros sumiram por diversas cidades. Moravam em uma cidade chamada Santa Cruz, distrito há muito extinto de Ribeirão Preto.

- Onde estou?
- Em Piraju vô. Na casa de sua filha.
- Quem é minha filha?
Aponto para minha mãe.
- Não, essa é Aninha, minha irmã, que não me deixa ir para canto algum.
- Hum.
- Eu me sinto sozinho sabe? Lembro de uma imensidão de coisas e, de repente, tudo fica escuro, vazio, como se eu caísse em um buraco negro.

Percebi que, na verdade, ele se sente muito sozinho, não reconhece as pessoas e tem espasmos de memória que lhe trazem sentimentos muito distantes.
Certa altura do dia, ele pede dinheiro para ir ao bar. Algumas vezes não se pode dar, atrapalha o efeito dos remédios. Não há muito o que fazer, negar a cerveja diária é o mesmo que tirar sua única lembrança dos dias. Não é justo.

Olho em seus olhos, bem fundo, e não consigo resgatar uma lembrança sequer. Nada. É como se por trás da pupila, de dentro da retina, não existisse mais nada, a não ser um emaranhado de idéias confusas, sem cronologia correta, tudo espalhado dentro de um quarto que necessita de arrumação.

6 de julho de 2008

Comecei pelo fim.

Até agora não decidi para onde vou.


p.s: [Que eu, desde a partida,
Não sei onde vou.
Roteiro da vida,
Quem é que o traçou?]

Camilo Pessanha

12 de junho de 2008

Cinema Paradiso


Partir sempre é como habitar lugar nenhum.

Olhar para trás é como ver fantasmas, e sempre em frente é como não ter saudades, ou apagar lembranças.


A vida às vezes segue sozinha, sem capitão para o timão do navio, só embalo das ondas e ventos dos continentes.


Ser sempre dos lugares é pertencer ao mundo e às suas estradas tortuosas.


Envelhecer é descobrir os destinos para onde nos levam os caminhos.

Sentir cada circuntância é viver.


As pessoas fazem parte das trilhas pelas quais passamos. Conhecê-las é pertencer aos lugares e abandoná-los em breve.


É necessário partir e voltar.


Mesmo que a aparência mude, o ar traz o cheiro de tempos diversos.


Não lembrar é abandonar os detalhes de pessoa em seu tempo presente.

Ser pessoa implica perder-se pelos caminhos mal traçados, encontrar o despreparo da falta de planos e das saudades espalhadas e latentes.
[ps. a foto não está em CC's]

7 de junho de 2008

Não vim para ver a vida
P
A
S
S
A
R

Mas sou
P
A
S
S
A
G
E
I
R
A

Vim para ficar
E ver tudo
M
U
D
A
R

21 de maio de 2008

Dias e noites de Montevidéu

Montevidéu

Uma estrela, uma estrela
nenhuma constelação
nenhum disco voador
nem dor aqui
e quando olho lá embaixo
vejo velhos
vejo carros
vejo coisas
a estrela, as luzes, o céu daqui

É um tanto saudade de lá
no entanto eu não quero partir
lá no canto uma estrela
eu adoro existir!

texto de Paulo Vigu. Poeta e compositor pirajuense. De primeira!


[porque os dias e noites têm tido as cores de Montevidéu, que não conheço, mas imagino como seja]

25 de abril de 2008

Cena

Não mude a cena do filme cujo final você não escreveu. É irresponsável e arrogante. Mas crie e invente novos finais, para personagens alcançáveis e insaciáveis por uma nova história.

18 de fevereiro de 2008

do que eu sei

Não me peçam para endurecer.

a leveza é o que me convém.

21 de janeiro de 2008

Não gosto de nada que tire o brilho dos olhos dos meus amigos. Nada que aconteça a eles passa por mim sem deixar uma réstia de dor.

Não são tempos fáceis. São tempos em que os ventos trazem notícias ruins, as aflições engrandecem.

No mundo do futuro, o mais difícil é saber para onde ir. Não há samba nem cachaça para servir de anestesia.

A cidade de pedra maltrata. A cidade de rio é longe e deixou de proteger.

Meus amigos têm a cara e a alma limpa. Sonham. Criam como se vida a isso se resumisse. E sonham sempre.

A esperança de dias melhores nos espreita, embora às vezes tão a espreita que parece não estar em lugar nenhum.

De longe se vê que os tempos hão de mudar e eles se esforçam para tudo correr bem.

Sem motivos aparentes, a tristeza corre sorrateiramente por seus rostos. Eu quase posso ver.

E eu, só consigo lançar palavras frágeis, construídas em prosa e verso.

20 de janeiro de 2008

João Passarinheiro - terceira parte

Depois desse acontecimento, o pai isolou-se numa busca eterna pela mulher. Mal falava com o filho e deixou de preparar-lhe a marmita de arroz, feijão e bife, que costumava trocar pelo peixe abundante no riacho que corria perto da casa. Desde então, Passarinheiro deu para tomar muito café que ele mesmo torrava e servia ao pai nos fins de tarde, quando chegava de sua incursão diária pela mata verde e cerrada. Fumava cigarro de fumo de corda que trocava no armazém de Seu Joaquim por um punhado de café fresco servido todas as tardes pelo comerciante. Era magro e esguio, andava descalço sempre, por maior que fosse a caminhada.


[Aviso aos navegantes: para entender esse texto, creio que seja preciso ler as outras duas partes, perdidas, embora facilmente encontráveis, em cantos desse blog. Era só e tudo isso]

8 de janeiro de 2008

me dê notícias de você

É minha fuga.
Meu delírio.
Meu silêncio e meu suspiro.

Tudo está lá fora.
.
.
.
Quieto.
.
.
.
À espreita de um descuido meu.

Esse descuido que nunca vem.
É um medo que me assiste.
Sem trégua.

26 de dezembro de 2007

Gosto mais dos casos que Chico cantou e das histórias que Garcia Márquez escreveu.
Hoje tatuei minha vida em mim.
Outra metade dela, tatuei nas encostas do rio.
Uma história que não é minha.
Mas criei e sou a protagonista não revelada.
O sujeito do não-acontecer.
Reinventei-me para poder viver.

Faltou-me o verbo.
A canção.
O tato.
Até a lembrança.

E silêncio e sozinha.
Dona de uma história que só acontece aqui, cá bem dentro daqui.
Agora já não é mais nada.
Apenas certezas vãs. E o nada.
Tudo passou diante dos meus olhos e dos meus gestos.
Eu nada pude fazer.
E agora tudo está em seu devido lugar.
Cá dentro de mim o mundo revirou-se.

Eu calei.
Silenciei.


Neguei-me a mão que passeava.
Nada fiz.
Nada.

27 de novembro de 2007

Fragmento de uma madrugada.

Isso acontece com os livros.

São sentimentos de páginas abertas.

14 de novembro de 2007

É que quando eu vejo as pessoas na rua, se escondendo nos bares para fugir da chuva, penso até em querer ficar.

28 de outubro de 2007

Do Engradado


Hoje é dia de samba em Piraju também.

Domingo povoa as ruas de batuques.

eu aqui.

eu ali.

eu lá

Vai Vai

Pela janela de casa um samba de longe invade todo o lugar.

É uma pena que eu não possa ir para lá sambar.

6 de outubro de 2007

sobre música e sem qualquer pretensão

Hoje, depois de uma semana repleta de dias difíceis, de descobertas e oscilações de humor, assisti, logo que acordei, a um DVD de Chico e Tom. Há bem poucos dias atrás, estava enfadada da voz do Chico, como relatei em outro texto. No entanto, hoje, enquanto as imagens circulavam pela tela, reafirmei meu gosto pela música, dele e de tantos outros músicos maravilhosos que existem nesse país.

Sem querer pensar muito sobre o assunto, várias vezes já cheguei à conclusão de que a música é a forma mais sublime de arte. Ela, mais rapidamente que todas as outras artes, atinge nosso ponto (de noção quem sabe) estético, emocional etc e tal. Esfria a medula, e hoje, aqueceu e umedeceu meus olhos.

Gosto muito de música, não há grande surpresa nisso, difícil quem não goste, por isso é tão sublime, simples maneira de fazer arte. Bem, pelo menos de senti-la.

Gosto quando predomina o silêncio musical, daquele silêncio espontâneo que existe quando amigos meus fazem música. Serenidade, sem mais delongas sobre o que essa palavra possa significar.

1 de outubro de 2007

Desabafo da preguiça


(Uma pausinha no Passarinheiro só porque eu quis. Essa é que é a verdade)


Todo dia, mesmo que ele seja sempre um novo dia, dá um pouco de preguiça.


De abrir o jornal diário e encontrar sempre o mesmo tipo de notícia.


De abrir o olho quando acorda e saber que o mesmo problema ainda precisa ser resolvido.


De saber que a rima do poema às vezes é ruim e que às vezes também não tem sentimento algum.


De saber que o sol queima e algumas vezes arde, outras, que ele deixa uma cor bonita na pele.


De acender o primeiro e mais prazeroso cigarro, aquele depois do café da manhã, e saber que ele vai te adoentar daqui a algum tempo.


Também dá um pouco de preguiça da voz do Chico, mas essa informação eu mantenho em segredo.

29 de setembro de 2007

João Passariheiro - outra parte

A capela ocre estava cheia de pequenas flores amarelas e brancas no contorno dos bancos e em arranjos dispostos pelo altar pequeno de alvenaria ainda não rebocado. Para a solução deste problema, Delfina sacou de um baú adormecido no quarto de sua falecida mãe, uma toalha branca com bicos de renda. Era essa mesma toalha que a mãe usava para cobrir a velha mesa de madeira de sua infância durante os almoços dominicais.

Delfina era muito parecida com a mãe, tinha os cabelos longos e negros até as costas, lisos como um tecido fino de seda. Quase todos os dias usava vestidos floridos e chinelos de finas tiras de couro. Passava horas frente ao espelho escovando os cabelos. Nessas horas sonhava com seu casamento com um fazendeiro rico, que tivesse casa e carro e que apareceria de repente, trazendo-lhe flores e trajando terno xadrez de tons pastéis. Quando encontrou João Passarinheiro e inevitavelmente se apaixonou, também aprendeu a lamentar frente ao espelho a triste sorte de se apaixonar por um sujeito magricela sem carro e sem casa, que trabalhava na colheita de café nos sítios e fazendas da região, se aboletando em qualquer canto escuro para dormir e, muitas vezes, dependendo da generosidade de seus patrões. Levava uma barraca de lona nas costas e andava feito um caramujo com a casa nos passos.


Passarinheiro perdeu a casa de seus pais quando fez dezessete anos, logo após a morte de seu pai, que padecera louco depois do sumiço repentino de sua mulher, vítima de uma febre de cuidados banais que alimentava uma busca cega pela limpeza e pelo bem-estar da família. Belo dia, tomou o rumo da estrada em busca de sabe-se-lá o que e perdeu-se na escuridão e, por mais que João e seu pai procurassem, a mãe perdia-se cada vez mais pelo matagal, até ser absorvida por ele.